Curitibanos,

PEDACINHO DO CÉU

12 Outubro 2017 11:29:15

Por vezes, as praças são um bom lugar para se repousar as preocupações. Naquele dia em especial, com o céu de um azul sublime, sem uma nuvem sequer e o sol aquecendo sutilmente com seus raios iluminados, a minha inseparável companheira que tem nome e sobrenome - Confusão Mental, pareceu se render. A troca foi mais do que justa, pois, quando ela se foi, a brisa trouxe um anjo.  

A menina aparentava ter uns cinco, seis anos, usava um vestido de algodão com as cores do arco-íris, e chegava na praça de mãos dadas com a mãe. O brilho do sol se intensificou naquele momento. O astro resplandeceu. E o arco-íris em forma de criança ficou mais colorido e inocente. A garota soltou a mão da mãe quando chegou ao centro da praça, onde havia um canteiro de margaridas; se agachou, colheu uma das flores e colocou-a atrás da orelha. Leite e mel num recipiente de cristal.

O lugar podia até ser palco das margaridas, mas a fragrância no ar era dos jasmins que vinham da casa em frente; feito espumas brancas desviadas, agarravam-se bravamente à cerca de pedra: creme doce preso ao ufanismo de nossas resistências. Eu analisava esses valentes retalhos de cetim quando ouvi duas gargalhadas felizes: pelo que percebi, a menina contara para a mãe alguma história secreta, uma piada ingênua, não ouvi do que se tratava, mas, mesmo que escutasse, certamente não teria compreendido. Não sei falar a língua dos anjos.

Neste instante, um vendedor de picolés se posicionou bem na minha frente, eclipsando a graciosa paleta de cores que era aquela criança. "Vai querer um picolé? Tem de nata, chocolate, morango, tem até de..."

A propaganda do homem foi interrompida: "Mãe, olha! Um pedacinho do céu!" Levantei do banco, dei um passo para a direita, e vi o encantamento vestido de gente apontar um dedo gorducho na direção de uma borboleta. Dourada. Sei, eu sei que você vai dizer que borboletas douradas não existem ou que nunca viu uma. Mas, juro, aquela era tão dourada quanto um sonho de infância, tão fulgurante quanto uma esperança acalentada. Tão linda quanto o céu daquele dia.

A criança então estendeu o braço e, milagrosamente, a borboleta se postou no ombro dela e ali ficou, por vários minutos, uma eternidade, perpétuos instantes de ternura enquanto a menina ria, com seu riso de boneca real, seu riso de princesa encantada. Ria, enquanto a margarida atrás da orelha ganhava sentido diante do sorriso do sol. Ria, enquanto o arco-íris do peito se expandia. Ria, enquanto a mãe balançava a cabeça, em uma manifestação estupefata de admiração. Ria, enquanto os jasmins espargiam o sortilégio de suas maravilhas pelo ar. E ria, principalmente, porque estava com um pedacinho do céu nos ombros.

"Hei!" Uma impostação meio irritada me tirou do transe: "Vai querer o picolé, ou não?" Eu? Se eu vou querer creme batido, depois de ver leite e mel enfeitando os cachos de uma menina? Se vou querer corante artificial, depois de avistar as tintas do arco-íris no peito de um anjo? Se vou querer doçura postiça depois de ter um vislumbre do paraíso construindo as asas da criança?

Na verdade, eu queria a minha borboleta dourada, minha fatia de ilusão, minha caixinha secreta, onde guardaria meus desejos para que não continuassem a se esvair. Mas, naquele momento, me contentei em pedir: "Me vê um pedacinho do céu?".

                                        ***

Leitores, esta é uma das crônicas que está no meu novo livro NOSSOS SILÊNCIOS DOURADOS. O livro (de crônicas e poesia) está à venda através do site www.clubedeautores.com.br. Disponível nas versões Ebook e impresso.



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