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Nós, os mendigos

20 Abril 2017 09:12:34

Natália Sartor de Moraes
Foto: Divulgação

Monarcas e mendigos temos dupla existência. Reis e súditos mantemos nossa sanidade por um tênue barbante. Poderosos e padecentes nutrimos esperanças que beiram a inocência. Solavancos de realidade nos arrancam dos braços perfumados da ilusão: somos os padecentes, somos os súditos, somos nós, sempre nós, os mendigos.

Assunto recorrente, um tanto sacal, mas ainda assim inescapável é aquele que aborda os "altos e baixos" da vida. Falam que são eles que nos mantêm em equilíbrio. Quando enfrentamos um momento supostamente favorável, não nos impressionemos, logo uma queda vertiginosa nos retirará o véu cor-de-rosa da vista. No entanto, a tristeza também acaba: é o que dizem, é o que especulam, é o que espalham.

Em suma: somos bonecos de pano nas mãos irônicas da vida: jogados na escuridão e resgatados pela luz, frequentemente, diariamente, absurdamente, sarcasticamente. E isso, tudo isso, toda essa manobra cruel é mesmo para nosso equilíbrio? Será que alguém ainda acredita ou apenas procura se consolar com essa explicação risível? Mas talvez nos consolar seja a única e a última opção. Saúdo todos que conseguem.

 A luz nunca é tão forte, nunca tão duradoura, jamais crível. Já a escuridão inspira mais respeito por ser teimosa, audaz, incontestável. E é quando sentimos a treva nos envolver em um abraço putrefato que nos tornamos os verdadeiros mendigos. Não aqueles que mendigam pão, nem aqueles que mendigam abrigo, mas os que mendigam amor.

Só que mendigar amor ainda não é o mais grave, embora seja degradante. Desespero é mendigar compreensão. Ausência completa de luz é implorar entendimento puro e isento de julgamentos. Somos nós, sempre nós, os mendigos.

Há momentos em que olhares não nos dizem nada, conversas são dispensáveis e conselhos, repugnantes. Há momentos em que o jogo da vida desgasta e até mesmo ela, a própria vida, se entedia de nos lançar de um lado a outro, da claridade ao breu, do ocaso à aurora e nos deixa livres. Livres para mendigar.

Os efeitos artificiais da vida simplesmente cansam, ou seus braços exaurem-se de brincar com os bonecos de pano. Então o efeito blecaute adormece, e o efeito estrela de Hollywood também. Fica o limbo, a modorra, a apatia, o tanto faz.

Semana passada, lendo um lindo e melancólico poema de Álvares de Azevedo, me deparei com o seguinte trecho:

"Ah! quando as belas esperanças murcham

E o gênio dorme, e a vida desencanta,

D'almas estéreis a ironia amarga

E a morte sobre os sonhos se levanta".

Diante da existência que hora ou outra desencanta, das almas que se tornam estéreis e da morte que virá, sequiosa, se levantar sobre os nossos mais belos sonhos não peço que desistam, porém sem hipocrisias e teorias batidas de livros de autoajuda venho mendigar a compreensão de vocês: tenham cuidado no acreditar, preservem seus corações de desilusões avassaladoras, guardem suas almas, vigiem seus pensamentos fantásticos. Sejam seus próprios guardiões para não se tornarem, mais tarde, eternos mendigos.


 

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