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Vizinhos de Quarto

17 Abril 2017 15:25:00

Carlos Homem
Foto: Divulgação

Dois anos parei naquela pensão. Antiga, construída com madeiras, mas com o nome abençoado de Hotel São Jorge. Coisa bem esquisita uma espelunca daquela ter o nome de um santo garboso e valente. Logo São Jorge que se vestia galhardamente, montava um cavalo fogoso e guerreava combatendo dragões. Mas era ali que eu ficava para estudar e era só aquilo mesmo que meu dinheiro alcançava. Com as divisórias de madeira ouvia-se tudo o que acontecia no quarto vizinho. Ou quase tudo. Gargalhadas, gritos, sussurros, gemidos, coisas caindo, barulho de água na pia, roncos do sono que o cansaço dera causa. Minha imaginação ficava acelerada. Então não conseguia estudar e nem dormir já que atiçado por pensamentos poluídos. Havia muita rotatividade na ocupação daquele quarto vizinho. Até que um dia uma colega de faculdade hospedou-se também ali. Uma moça loura muito bonita, com zigomas aristocráticos que lhe davam um ar de superioridade. Ela era mesmo muito empinada. Pernóstica até. Outro colega da mesma fase fez uma combinação com ela para estudarem juntos à noite. Então ele ia ao quarto dela depois da janta. Mas eu, ali ao lado, depois de alguns dias, comecei a estranhar os ruídos. Repetia-se aqueles barulhos conhecidos de outras vezes: Risos, gemidos, ranger da cama, gente arfando, coisas caindo, barulho de água na pia. Se aquele casal de colegas estava estudando, com certeza não era nenhuma disciplina que constava no currículo. A não ser que ali estivesse acontecendo um duelo entre São Jorge e o dragão! Dando tratos para as minhas fantasias, visualizava a lança do santo guerreiro perfurando a garganta do monstro foguista. Fiquei incomodado. Não havia como me concentrar naquilo que lia tentando estudar, além do tormento que a cobiça me causava. Na mesa do café da manhã, depois de esperar um hiato nas conversas, manifestei meu desconforto ao casal. Falei que aquela felicidade horizontal, com barulhos em horas impróprias, me atrapalhava os estudos e eu tinha noites insones. Não tive coragem de dizer pra eles que o melhor afrodisíaco é ouvir ganidos daquelas dores fingidas no êxtase, e no silêncio da noite. Prometeram-me que tais coisas não aconteceriam mais. Ficaram assim com beicinhos atrevidos, mas perceberam que na verdade eu estava é com inveja. Apesar daquilo tudo, sob a proteção de São Jorge, sempre fui bem nas minhas provas!


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