Editorial
27/8/2010 11:03:00
CABRITO BOM

Não berra. Virgolino Ferreira da Silva, Lampião, o rei dos cangaceiros, acrescentou ao adágio que cabrito bom não berra sem ser hora chegada.

Ah, pois, onde a coisa fia? O exercício do direito, a justa reparação de dano ou lesão eventual, tanto ao físico como à honra ou à moral, dependem exatamente do berro do cabrito interessado. Nestes tempos do pós-moderno, até por conta da consciência coletiva e da mobilização social, direitos são assegurados. Dê-se vista d’olhos na sensível posição de consumidor, por exemplo. É inútil a existência de proteção legal se aquele que se sente lesado não abrir a boca. A começar por uma simples embalagem de produto: se não atende às especificações e disposições legais, reclame. A Lei obriga a manutenção do tal SAC, serviço de orientação que a empresa fabricante do produto deve manter para orientar a respeito de tudo o que põe no mercado. Logo, use o serviço, que ainda é meio capenga, meio de má vontade, mas que, ao contínuo e, especialmente, à utilização, vai aperfeiçoando, e que os bons empresários, ao menos os inteligentes, também transformam em boa ferramenta de consulta junto a seus consumidores. Mas o mero telefonema ao serviço não vai, por si, melhorar o que está errado ou defeituoso. A insistência e a denúncia sim, até pelas vias obrigadas, vão surtir efeito. O Procon é outro órgão que, se bem utilizado, não como balcão de picuinhas, mas como mediador das relações negociais imperfeitas, vem de ser instrumento moderno, ágil e eficiente para dirimir as pequenas controvérsias e repor coisas nos lugares certos, sem as delongas do sofrido caminho do nosso semifalido judiciário. É de notar-se que os instrumentos sociais aqui comentados, ainda com cheiro de novidade para nós e, talvez daí o uso ineficiente, já existem nos Estados Unidos e Europa desde antes da 2ª Guerra. Ah, o tal primeiro mundo. Mas de que serve ele se de lá não trouxermos exatamente o que nos será útil? Normalmente, como chimpanzés mal treinados, xerocamos o que não presta. Os sociólogos pregam que a sociedade se aperfeiçoa, no espaço e no tempo, a passos de cágado. Pois bem, tão mais lento será o avanço se nos quedarmos mudos e cegos, inertes diante do nosso direito ofendido. Se não agimos em defesa própria, que se dirá no interesse de terceiros ou do coletivo? Quer ver? Legislação recente, fresquinha, obriga os estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços a terem, em exposição permanente e ao alcance, o Código de Defesa do Consumidor para imediata consulta. Pois nota-se que a maioria não possui, não expõe e ninguém fala absolutamente nada. Será retrato de Brasil, deitado eternamente em berço esplendido? Então, acorda.

Ver comentários
Escrever comentários
Galeria de Fotos Edição 1487
*