Sim, observando as coisas com boa lupa e ressalvando as honrosas exceções, temos uma boa safra de motoristas folgados aqui na terrinha. Sem concordar que sejamos o furo do mundo, convenha-se que também não somos exatamente uma metrópole, como Tókio ou Bagdá, vistas e tidas como de trânsito caótico. Aqui, as barbeiragens, algumas de propósito, ficam exatamente por conta da folga de um punhado de alguns muitos. Diariamente, observa-se de corpo presente ou se tem notícias firmes dos absurdos cometidos. Onde está a raiz do problema? Pensamos que seja esta sensação de que sempre somos superiores às leis. As tais leis, o Código Brasileiro de Trânsito, nos dizem respeito minimamente e seus rigores referem aos outros, pois somos exceções e, como tal, o estacionar em cima da faixa de pedestres, utilizar a vaga reservada a deficientes, deixar meio carro na faixa amarela proibitiva, fechar a esquina sem guardar a distância regulamentar, parar o carro no meio da rua e ficar batendo papo são situações a que não nos podemos dispensar face a nossa importância em todos os contextos, cabendo aos outros, mortais comuns e insignificantes, obedecer integralmente às regras, até porque, então, facilitam a nossa vida. Ampliando a questão, temos a briga eterna com os nossos comerciantes, alguns muitos que vêm de carro para o seu comércio, a esposa idem, alguns funcionários também possuidores de veículos e todos com o direito adquirido de estacionar na porta do estabelecimento. Os clientes que se lixem e vão estacionar na casa do caraca ou onde puderem. A isto se somam os boçais, que estacionam na bomba de abastecimento e saem a bater papo alhures ou vão ler os jornais na loja de conveniência. No atacado, motoqueiros inábeis e atrevidos, candidatos permanentes às muletas, cadeiras de rodas (não motorizadas, é claro) quando não a prematura ida ao andar de cima, jovens enlouquecidos a transformarem as vias públicas em pistas de rachão. No institucional, urge à municipalidade em realizar e aplicar plano diretor de trânsito para evitar pontos de estrangulamento, planejar o global e não soluções pontuais, retirar os semáforos lentos de tempo eterno úteis apenas em cidades grandes ou adequá-los à nossa realidade. Planejar agora, pois, na base do problema, está a facilidade creditícia, o crescente de veículos nas ruas, a melhoria do poder aquisitivo ou a política agressiva das financeiras que fazem por aumentar, todos os dias, a quantidade de veículos transitando. Questões como a regulamentação do estacionamento em via pública, com ou sem periquitas, devem voltar ao debate em profundidade. De resto, enquanto tais medidas não são adotadas, sempre se tem a autoridade policial que deve agir com rigor, advertir os incautos, multar os recalcitrantes e guinchar os veículos dos mais teimosos. A banha sobrante do frigir dos ovos é que o trânsito em via pública é mais questão de educação que de leis e regulamentos.