Sexagem torna real sonho de gerar apenas fêmeas
Pecuária leiteira é maior beneficiada pelo método de separação de gametas X e Y A sexagem do sêmen é a grande aposta de criadores do Estado para ampliar a produção de leite. Por meio dela, pode-se fazer com que se torne realidade um sonho que, até pouco tempo, parecia impossível: reproduzir só fêmeas. Isso acontece porque a sexagem nada mais é do que a separação e identificação dos gametas X e Y, possibilitando que o criador possa inseminar somente os de seu interesse. "Identificou-se que o X tem 3% a mais de DNA na sua carga genética e, com uma técnica de imunofluorescência, eles são separados ao reagir com cor diferente do masculino", explica o veterinário Vitor Hugo Martinez Pereira, coordenador do Programa de Melhoramento Genético Cooperativa Santa Clara, de Carlos Barbosa. A técnica chegou no Brasil em 2004, mas somente agora ganha força no campo.
Além de escolher o sexo das crias, a técnica permite que o criador atue de forma determinante sobre a quantidade e a qualidade do leite produzido. Escolhendo material genético de reprodutores provados, os produtos têm grande chance de herdar suas características. Com novilhas de melhor padrão racial, inevitavelmente haverá maior pressão de seleção sobre o plantel, tornando o descarte uma ferramenta de gestão permanente. Desta forma, aumenta a taxa de crescimento do rebanho e o leite será mais valorizado na hora da venda. Prova disso está nas bonificações oferecidas por algumas indústrias que implantaram políticas de premiar a matéria-prima qualificada. "Sabemos que a Languiru, a Nestlé e a CCGL já adotam esta linha", revela o secretário executivo do Sindilat, Darlan Palharini.
Todas essas vantagens esbarram no custo e na necessidade de cuidados especiais para que o trabalho não vá por água abaixo. Por se tratar de uma tecnologia recente e cara, apenas duas centrais de inseminação realizam a separação dos gametas do espermatozoide bovino no Brasil. As outras compram as doses já sexadas para revender. O produto em si também tem preço superior ao convencional, chegando a custar, dependendo do reprodutor usado, até cinco vezes mais do que a dose normal. De acordo com o diretor técnico da Asbia e gerente de produção da ABS Pecplan, Neimar Severo, em média, o sêmen nacional sem prova, que custa R$ 15,00 a dose, tem seu preço elevado para R$ 40,00 quando é sexado. No importado, essa relação sobe de R$ 30,00 para R$ 70,00.
Por ser muito manuseado no momento da separação dos gametas, o sêmen sexado também tem maior probabilidade do que o convencional de não gerar prenhezes. Esse manuseio acaba reduzindo seu índice de fertilidade. "Sexado exige mais cuidados na manipulação e aplicação, pois é menos concentrado que o normal", esclarece Neimar Severo. Por isso, se faz necessário tratamento adequado antes da inseminação que garanta à matriz um bom índice corporal para que responda positivamente ao processo. A redução do índice de fertilidade do sêmen também é ressaltada pelo diretor da Semeia Genética, Léo Fraga Warszawsky, para quem a sexagem deve ser usada com muita parcimônia, já que a qualidade do sêmen oscila muito no processo, mesmo com a realização de exames laboratoriais.
O melhor resultado acontece com novilhas. Conforme o presidente da Associação dos Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul (Gadolando), José Ernesto Ferreira, as vacas que estão no primeiro serviço de inseminação oferecem resultados melhores, já que ainda não teve o desgaste da lactação. "Elas têm uma saúde reprodutiva melhor por não terem tido nenhuma cria ainda", explica. Em vacas, também se aplica o sexado, mas o percentual de aproveitamento é menor. Comparativamente ao sêmen tradicional, em condições favoráveis para a inseminação, o resultado do sexado - que já diminui 10% nas novilhas - cai de 20% a 25% nas vacas. Essa é uma das justificativas pelas quais o presidente da Associação de Criadores de Gado Jersey do Estado, Nilton Paim, prefere não utilizar a técnica. "Como o sexado não tem 100% de acerto, o sêmen nem sempre é de reprodutor provado e o custo é muito alto, os criadores de Jersey preferem investir na qualidade do leite", argumenta o dirigente.
Para aumentar a margem de acerto, Ferreira reforça a necessidade de usar material genético de touros com teste de progênie. Por isso, a maioria do sêmen utilizado no Brasil é importado. "A inseminação artificial é como um insumo que deixa resíduos, passando características produtivas para as filhas, as netas e as bisnetas da vaca", explica. O gerente comercial da CRV Lagoa, Antonino Bosco, aconselha o criador a usar exemplares com excelente histórico reprodutivo e sanitário, escolher vacas de bom estado nutricional e descongelar o sêmen no descongelador automático.
Técnica chega aos pequenos agricultores
Mesmo com a complexidade do processo para a aplicação de sexado, a Cooperativa Santa Clara leva a tecnologia para seus 3 mil criadores espalhados por 60 municípios do Estado. As inseminações em 200 fêmeas ocorreram no ano passado com sêmen importado. As primeiras crias nascem neste ano. "Elas respondem por 1% de todas as inseminações artificiais realizadas pela cooperativa em 2009", enumera Vitor Hugo Martinez Pereira, coordenador do Programa de Melhoramento Genético da cooperativa. Segundo ele, o investimento vale a pena, já que o custo total de uma novilha é muito mais alto do que o da inseminação artificial. "Desde que nasce até parir a primeira cria, ela custa entre R$ 2,3 mil e R$ 2,5 mil ao criador." Por ano, a Santa Clara adquire 20 mil doses de sêmen de centrais brasileiras, e o objetivo com o sexado é melhorar as condições da concentração de sólidos no leite. A cooperativa recolhe 600 mil litros por dia, com média de 200 litros por propriedade.
O processo começa com palestras educativas sobre a adequada preparação das matrizes que serão inseminadas. Na propriedade, o criador observa o cio e comunica à Santa Clara o momento em que elas estão preparadas para receber o sêmen. Uma equipe de 25 pessoas fica em alerta para ir a esses locais e não perder o período correto. Se o produtor avisa de manhã, o inseminador vai à tarde. Se avisa à tarde, vai no outro dia de manhã.
As doses utilizadas são pagas na entrega do leite. Como a Santa Clara compra doses em grande quantidade, repassa ao produtor apenas o custo. Outra vantagem é que o criador não precisar manter touros na propriedade, o que demandaria mais gastos, já que as fêmeas precisam estar sempre emprenhadas. Também não há ônus de armazenar sêmen. "O nitrogênio está R$ 4,00 o litro e precisa estar na temperatura de 187º negativos. Como evapora, tem que ser reposto. Para o pequeno, não compensa ter estoque de sêmen nem adquirir o botijão", diz Pereira. Se a inseminação não tiver sucesso, esperar-se 21 dias para tentar de novo.
Uso do recurso ainda é incipiente na criação de gado de corte
As iniciativas de uso do sêmen sexado no gado de corte ainda são incipientes no Estado. Por apresentar custo mais alto do que as doses normais e menor índice de fertilidade, ainda não tem valido a pena para os criadores das raças predominantes no Rio Grande do Sul como Angus, Hereford, Braford, Devon e Charolês.
Mais do que simplesmente uma questão de escolha, o incipiente uso de sêmen sexado na formação dos rebanhos de corte no Rio Grande do Sul é explicado pelo foco dos investimentos. Na pecuária leiteira, os olhos estão voltados para a produção de fêmeas. Na de corte, a precisão média de 50% nas inseminações não interfere no resultado, já que animais de ambos os sexos podem ser abatidos.
Por isso, até mesmo o uso de ferramentas convencionais, como inseminação artificial (IA) com sêmen tradicional e transferência de embriões, ainda é considerado pequeno, de acordo com o integrante do Conselho Técnico da Associação Brasileira de Angus (ABA) Luiz Aberto Müller. "São muito poucos os criadores que utilizam em alguns plantéis de Puro Controlado e Puro de Pedigree", salienta. Mas, ao mesmo tempo em que a implementação de IA com sêmen sexado cresce entre os criadores de gado leiteiro, a inseminação artificial em tempo fixo (IATF) ganha adeptos na pecuária de corte. "O uso de hormônios e programas de IATF tem sido muito importante para o crescimento da inseminação no RS", explica Müller.
Pela técnica, as vacas têm a ovulação induzida com produtos específicos, e a inseminação pode ser feita com data marcada. Esta possibilidade elimina um dos grandes problemas do manejo das fêmeas antes da IA, que é a observação de cio. Desta forma, ele poderá controlar completamente o processo reprodutivo do rebanho, planejando operações como inseminações, repasse e manejo dos touros e cuidados ao nascimento dos terneiros. Assim, todas as vacas podem ser inseminadas ao mesmo tempo, o que irá concentrar os nascimentos na mesma época, otimizando custos com material e mão de obra.
O resultado será uma grande aceleração dos ganhos genéticos. Tudo isso acontece devido à antecipação de prenhezes, à redução no intervalo entre partos e ao aumento do número de crias. Por sua vez, os terneiros podem nascer e desmamar em épocas mais favoráveis, constituir lotes mais padronizados e resultar em melhor preço.
Pecuária
Parceria entre BRFoods e Embrapa promete aumentar competitividade do leite
Objetivo é colocar o setor nos níveis de produção de primeiro mundo
LONDRINA/PR - Diferente do segmento de carnes, o de leite do Brasil não é tão competitivo quanto poderia ser. A produtividade do setor chega a 1,5 mil, no máximo 1,7 mil litros por vaca a cada ano. Na Argentina, este número chega a quase cinco mil. E há países que têm média de oito mil litros de leite por animal.
A constatação foi o ponto de partida para a criação da parceria, que envolve a Brasil Foods e a Embrapa, além de uma cooperativa do Paraná. O acordo foi anunciado oficialmente em uma reunião em São Paulo. O trabalho já está sendo feito no campo com 20 propriedades. A maioria nos Estados da região Sul, mas há também em Pernambuco, Minas e Goiás. Os produtores têm acesso ao que se pode chamar de pacote de benefícios, e irão receber orientações técnicas e apoio para se manterem no mercado.— Acesso aos melhores medicamentos e sanitizantes, acesso às melhores sementes, aos melhores semens, ao melhor material genético. Tudo isso faz com que ele cresça na produção, cresça em competência de produção e a custos viáveis — disse o diretor geral da BRFoods, Wlademir Paravisi.
A parceria vai usar a experiência de dois projetos que já estão em andamento há mais tempo: o Clube do Produtor de Leite, desenvolvido pela BRFoods, e o Balde Cheio, da Embrapa. No conjunto, a idéia é melhorar a produção e por conseqüência a renda do pecuarista. Há 1,3 milhão de produtores de leite no Brasil, com média geral de produtividade de 250 litros/dia. Segundo os pesquisadores da Embrapa, com projetos como este é possível até triplicar esta média. — Mais de 90% dos municípios brasileiros tem no leite uma fonte de renda importante pro município. São quatro milhões de pessoas envolvidas na cadeia do leite. E nós não podemos deixar abandonados estes produtores. Temos que dar pelo menos a oportunidade deles participarem. Se eles vão participar ou não aí é uma questão de cada um — avaliou o pesquisador Artur de Camargo.
O produtor rural Ede Assis do Nascimento participa há quatro anos do projeto Balde Cheio. Ele recebeu os técnicos na propriedade, mudou os procedimentos, investiu em pastagem e, de 30 litros que tirava por dia, tira hoje 350. É em transformações como esta que está embasado o novo projeto.