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O que as estatísticas não mostram

O sentimento daqueles que depois de anos de trabalho foram demitidos pela BRF de Herval d’Oeste

Carla Dildey
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Foto: Carla Dildey
Uma das ideias dos trabalhadores demitidos é buscar uma vaga na empresa Aurora, em Joaçaba.

Recentemente os funcionários da BRF de Herval d'Oeste foram surpreendidos com a desativação de alguns setores, reformulação de outros e, consequentemente, demissões. Funcionários que há vários anos dedicavam parte de suas vidas diárias ao trabalho na empresa entraram na lista. A Folha da Manhã conversou com alguns deles para saber como a situação foi vista por quem estava do lado de dentro. Os nomes reais foram preservados a pedido das entrevistadas.

 

Luíza, 47 anos. Durante 28 anos se dedicou e conseguiu o seu sustento trabalhando na sala de cortes da unidade da BRF, em Herval d’Oeste. Desde a implantação do novo frigorífico em Campos Novos muitos boatos surgiram sobre o fechamento parcial ou total da unidade. “Ninguém nunca nos informou de nada. A gente soube pelos corredores, mas ninguém acreditava de verdade, porque era uma conversa que já tinha há muitos anos”.

 

Apesar da unidade Campos Novos não ser tão distante, 250 colaboradores optaram por serem demitidos. “A gente ia passar muito tempo num ônibus, tinha que pagar o transporte e ainda não foi oferecido nenhum aumento de salário, nada. E quem tem filhos, como ia fazer? Quando a gente trabalhava aqui já era ruim de sair caso um filho ficasse doente, imagine lá longe”, argumenta Luiza.

 

Depois de tanto tempo de trabalho, Luiza e os colegas esperavam que haveria algum reconhecimento pelo empenho de cada um. “Eles nunca levaram em consideração todos os anos que nos dedicamos. Os novatos e nós tivemos as mesmas oportunidades. Nos chamavam para uma sala num grupo de seis funcionários e ali eles explicavam que quem não aceitasse ir para Campos Novos ganharia a conta. Hoje eu vejo que a gente, lá dentro, era só um número a mais”.

 

Depois de 28 anos de comprometimento com uma única empresa, em um único setor fica uma tristeza muito grande. “ A gente se sente deslocado e muito triste. A gente trabalhou tudo isso pra nada! Ter trabalhado 30 anos ou só um, para eles não interessou! ”.

 

Luiza, que agora está recebendo o seguro desemprego, já planeja mudar totalmente de área de trabalho e de vida. Pretende fazer um curso na área de estética e se mudar para Florianópolis. “Eu sempre gostei disso, vou estudar e vou trabalhar pra lá. Porque aqui o que eu vou fazer? E para piorar o momento não está bom para procurar emprego”.

 

A história da Luciana

Luciana tem 25 anos e há três anos trabalhava na BRF. Da mesma forma que Luiza fala da empresa com tristeza e revolta pela falta de comunicação com os funcionários e também pela falta de explicação dos motivos que levaram à empresa a fechar diversas linhas de produção e manter apenas o setor de linguiças finas e embalagens.

“Depois de ouvir muitos boatos dentro e fora da empresa, eles reuniram todos os funcionários e avisaram que iam fechar o setor de abates e sala de cortes, mas não falaram nada sobre os outros setores que foram transferidos. O nosso sentimento é de revolta porque eles nunca explicaram que a empresa tinha esses planos”, conta Luciana.

“Mais da metade dos meus colegas de setor não aceitaram ir para Campos Novos. Eu não aceitei porque tenho filho pequeno e não dava para conciliar os horários da creche com os do ônibus que nos levaria até o frigorífico. Eu ia ter que pagar alguém para colocá-lo na Van e pagar para buscá-lo na creche. Financeiramente não ia compensar”, conta Luciana.    

Uma das indagações dos colaboradores que foram transferidos ou demitidos é o porquê da mudança de setores para outras cidades se até pouco tempo atrás a unidade de Herval d’Oeste era considerada exemplo para as demais. “Durante dois anos seguidos sortearam prêmios para os funcionários, a empresa tinha status ‘diamante’ e era reconhecida como uma das melhores unidades do país. Eu acredito que num curto período de tempo toda a BRF de Herval seja fechada, porque eles não vão manter toda essa estrutura para poucas pessoas trabalharem”, enfatiza Luciana que pretende buscar emprego na Aurora, em Joaçaba.

 

A comunidade busca respostas

Assim como Luiza e Luciana, a comunidade regional e também o Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Carne e Derivados, Indústria da Alimentação e afins de Joaçaba e região em Santa Catarina – SINTRICAJHO buscam respostas sobre os reais motivos que levaram a BRF a tomar essa decisão.

“Eram 1.050 funcionários, destes 386 ficaram na unidade, enquanto 250 foram demitidos e 414 vão a Campos Novos ou a outros municípios. O que queremos saber é o real motivo dessa transferência, pois até então essa unidade sempre foi muito bem conceituada. A empresa apenas nos diz que é uma estratégia”, conta o presidente do Sindicato, Luiz Andrade.

O Sindicato ainda se posicional totalmente contra a qualquer mudança de setor da unidade de Herval d’Oeste. “No começo era para sair só a sala de cortes e o abate, num segundo momento transferiram o setor de presuntaria e sobrou só isso. É lamentável, uma empresa com 85 anos tomar uma posição dessas e até o momento ninguém nos explicou a motivação de tudo isso. Eles falaram que não vão fechar totalmente a unidade, mas acredito que isso seja apenas uma questão de tempo”, encerra Andrade.

 



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