Greve também afeta pesca artesanal nos primeiros dias pós-defeso do camarão

04 Junho 2018 09:06:10

Com o término do defeso do camarão sete-barbas, pescadores se lançam ao mar com a incerteza da venda do produto para o setor industrial, que está parado por falta de insumos

Felipe Bieging, jornalista
Pesca do camarão (51).jpg
Foto: Felipe Bieging
“É um preço muito baixo, quase uma ofensa”

A temporada do camarão sete-barbas começou oficialmente nesta sexta-feira, 1º de junho, após 90 dias de defeso. Apesar de os pescadores artesanais de Balneário Piçarras e Penha retornarem à pesca, o crustáceo pescado nos primeiros dias ainda não tem destino comercial certo – já que a paralisação nacional dos caminhoneiros também afetou o setor industrial, que não possui material necessário para adquirir o camarão e beneficiá-lo.

“Se a Natubrás não conseguir comprar nesta primeira semana, que é a mais produtiva da temporada, já é um prejuízo para gente. E ela que regula o preço do camarão e valoriza o trabalho do artesanal”, disse o José Roberto Martins, conhecido por Zé Roberto. Ele pesca em um bote de 8 metros e que tem capacidade para 600 quilos. Na tarde de quinta-feira, 31, realizava os últimos reparos na embarcação para se lançar ao mar no início da madrugada.

O mesmo receio está sob os pescadores de Balneário Piçarras. A presidente da Colônia de Pescadores de Balneário Piçarras, Adriana Ana Fortunato Linhares, afirmou quem nem todos conseguirem insumos para a pescaria e aqueles que seguiram para o Atlântico, partiram com dúvidas sobre o destino final. “Muitos estão saindo na fé de que a Natubrás vai comprar. Mas essa greve quebrou a expectativa de muitos pescadores”, lamentou.

“Vou pescar, mas ainda não sei como será a venda. Tenho uma alternativa que é vender para uma empresa menor de Balneário Camboriú, mas o lucro é menor”, completou Zé Roberto, que está no cotidiano pesqueiro desde 1992. A venda para atravessadores, peixarias e diretamente na praia é outra alternativa para os primeiros dias, mas muitos relutam em seguir esse caminho.

 “É um preço muito baixo, quase uma ofensa”, declarou um artesanal em uma roda de conversa à beira do celeiro pesqueiro de Penha, a Praia do Trapiche, onde cerca de 200 barcos estão atracados. Ao todo, Balneário Piçarras e Penha somam aproximadamente 600 embarcações destinada à pesca do camarão. Diante do cenário incerto, muitos optaram por iniciar a temporada somente na próxima semana.

Dados não oficiais apontam que a primeira semana pós-defeso rende uma injeção financeira média de R$ 3 milhões junto aos pescadores. “Depois dessa primeira semana já fracassa, pois o tempo muda, a temperatura da água muda. O melhor momento do camarão é nos meses de abril e maio, quando ele está no seu tamanho ideal, não podemos pescar e ele acaba morrendo”, encerrou Adriana.

A Natubrás, uma das maiores compradoras do Estado, confirmou a falta de produtos para comprar e beneficiar o camarão pescados pelos artesanais nestes primeiros dias pós-defeso. A empresa acredita que a situação se normalize a partir da próxima semana - já que a greve dos transportes chegou ao fim e o fluxo de caminhões está se normalizando. A falta de nitrogênio é o principal problema da empresa.

Pedido para mudar defeso continua

Atualmente, uma comissão de pescadores vem se reunindo para tentar alterar o período do defeso da espécie para os meses de outubro, novembro e dezembro, e não de 1º de março a 31 de maio. Hoje, segundo a Portaria 74/2001 do Ministério do Meio Ambiente e amparada pela Instrução Normativa 189/2008 do Ibama determina o defeso nos estados Rio Grande do Sul ao Espírito Santo.

Até 2008, a Instrução Normativa 91 do Ibama determinava o período do defeso como sendo de 1º de outubro até 31 de dezembro. Ela foi editada em 6 de fevereiro de 2006 e teve como base um estudo técnico da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), que por anos estudou o ciclo reprodutivo desta espécie. “Nós analisamos a espécie desde 1996, principalmente seu ciclo reprodutivo, e hoje ele está deslocado”, confirmou o professor Doutor da Univali, Joaquim Olinto Branco. “Nossa pesquisa foi a base da Instrução Normativa anterior a esta”, enalteceu.

Ele detalhou ainda que o camarão sete-barbas possui dois períodos reprodutivos: um de maior e um de menor intensidade. O de maior intensidade, segundo o professor Joaquim, é justamente no final do ano. “O que já está acontecendo é que o volume pescado e o tamanho do camarão estão reduzindo. O defeso errado e o aumento de barcos de pesca têm favorecido isso”, encerrou.

 






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