Intolerância religiosa termina em acordo judicial em Balneário Piçarras

05 Outubro 2018 14:26:03

O caso aconteceu no momento em que mãe de Santo realizava oferenda em um local público; após denúncia na Polícia, injúrias seguiram até reunião conciliatória na Justiça, onde houve o perdão

HENRIQUE GRANDI
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“Acho que falta o respeito no mundo, sobre qualquer religião, eu quero ter a liberdade de poder fazer meus cultos

Era 12 de setembro de 2018. Uma quarta-feira. Marley Czelusniaki, adepta a religião de Umbanda, iniciava um trabalho de oferenda às margens de uma rua que leva à um paradisíaco balneário, em Penha, quando foi abordada por homem. Proferindo palavras de ódio e preconceito, segundo Marley, o homem a impediu de concluir seu rito e o caso acabou ganhando as mesas da Justiça, momento em que um pedido por perdão encerrou a questão.

“Acho que falta o respeito no mundo, sobre qualquer religião, eu quero ter a liberdade de poder fazer meus cultos, sem ninguém atrapalhar e sem medo de ser recriminada” desabafou a sacerdotisa moradora de Balneário Piçarras, conhecida como ‘Mãe Marley’. Diante das ofensas, ela registrou um boletim de ocorrência na Polícia Militar, dando início a um procedimento investigatório pela Polícia Civil.

Segundo o responsável pela Delegacia de Polícia Civil de Penha, Allan Coelho, essa é a primeira vez em sete anos que alguém registra uma ocorrência de Intolerância Religiosa. “Segundo a nossa Constituição vivemos um Estado Laico, e ela protege todas as crenças inclusive os ateus e a pena para esse crime pode chegar de um mês a um ano, conforme o artigo 208 do Código Penal” completou Allan.

Após testemunhos colhidos na Delegacia, o caso foi remetido ao Fórum de Balneário Piçarras para uma audiência no Juizado Especial Criminal. Ela foi realizada na segunda-feira, dia 1º de outubro e foi mediada por uma conciliadora, sob a responsabilidade da juíza Regina Aparecida Ferreira. Marley, ao ouvir o pedido por perdão, renunciou ao prosseguimento da ação. “Ele está muito arrependido, tremia na audiência e reconheceu seu erro, me pediu desculpas oficialmente, quem sou eu para julgá-lo”, lembrou Marley.

O presidente do Conselho Litúrgico do Superior Órgão Internacional de Umbanda e Cultos Afros SOI-BR, Mestre Marne Franco Rosa, acredita que o desconhecimento a filosofia da Umbanda acaba gerando todo esse preconceito.  “Falta de conhecimento, medo do novo. No momento que a pessoa conhece a filosofia da umbanda, ela passa a entender e a respeitar. A nossa missão é a paz e o amor”, avaliou.

Ele, contudo, tem opinião contrária com relação às oferendas realizadas em locais públicos, como em ruas – por exemplo. Para ele, isso estimula ainda mais o medo já existente. “Eu não fomento esse tipo de prática, recomendo que cada um faça suas oferendas em seus próprios santuários, terreiros. Algumas pessoas ainda não têm consciência para respeitar a religião alheia”, encerrou Mestre Marne, uma das referências religiosas do Brasil.

REDE SOCIAL INTENSIFICOU O TEMA

Assim que foi vítima da intolerância religiosa, Marley postou um vídeo em frente ao Fórum de Balneário Piçarras – no momento em que sua denúncia havia avançado. Sua postagem ultrapassou a casa das 102 mil visualizações, contando ainda com quase 900 curtidas e 2.120 compartilhamentos. “As pessoas me parabenizaram pela coragem e pela vontade, advogados levaram meu vídeo para suas aulas em faculdades, então acho que fiz a coisa certa”, finalizou Marley, que já pratica a Umbanda há 18 anos.

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