Ele sempre falou muito mal dos médicos cubanos, desabafa médica

26 Novembro 2018 09:32:03

A médica cubana Dalcia Biset Cisneros, conversou com a reportagem do Jornal do Comércio, e falou sobre seu retorno após quase dois anos de trabalho em duas unidades de saúde de Balneário Piçarras

FELIPE BIEGING, JORNALISTA
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Foto: Felipe Bieging
Eu fico chateada porque não é justo.

A médica cubana, Dalcia Biset Cisneros, conversou com a reportagem do Jornal do Comércio na tarde ensolarada de sábado (17). Por intermédio de uma amizade em comum, ela aceitou a entrevista antes de regressar para Cuba, após quase dois anos de trabalho em duas unidades de saúde de Balneário Piçarras. Ela faz parte dos mais de 8 mil médicos que estão deixando o país após o rompimento do contrato entre Cuba e Brasil para a continuidade dos profissionais no programa Mais Médicos. 

Formada há 19 anos pela Faculdade Número 1 de Medicina de Santiago de Cuba, a profissional de 42 anos adjetivou como "absurda" as novas exigências do governo brasileiro para que eles continuassem trabalhando. "Condicionamos à continuidade do programa Mais Médicos a aplicação de teste de capacidade, salário integral aos profissionais cubanos, hoje maior parte destinados à ditadura, e a liberdade para trazerem suas famílias. Infelizmente, Cuba não aceitou", declarou o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), em publicação no Twitter.

A limitada postagem virtual, na visão da profissional, terá reflexos negativos em amplitude na vida real de milhares de brasileiros. "Nós não viemos por política. Nós viemos para tentar resolver o problema de saúde precária que tinha o Brasil", rebateu Dalcia, que atuou com pacientes dos bairros Nossa Senhora da Paz e Morro Alto. Antes, porém, trabalhou por três anos na Venezuela, em programa de cooperação semelhante ao Mais Médicos.

Em uma entrevista iniciada com desconfiança, sentimentos como amor à pátria mãe, ingratidão e tristeza pela partida marcam as citações da médica que embarcou para Cuba na quarta-feira, 21. "Fui muito feliz aqui", encerrou. Dois anos depois, as lágrimas da partida voltaram aos olhos de Dalcia assim que pisou em solo cubano. No aeroporto, foi recebida pela filha, Luz, hoje com 6 anos, cuidada pela avó e pelo governo cubano.

JC - EM CUBA A SENHORA EXERCIA A MEDICINA EM ALGUMA ÁREA ESPECÍFICA?
Dalcia:
Em Cuba, o médico faz uma especialidade - que aqui chamam de Medicina Comunitária - mas que em Cuba é Especialista em Medicina Geral Integral. É uma especialidade bem completa que criou o nosso comandante, Fidel Castro, nos anos 80. Então, um médico precisa fazer três anos de especialidade: em um ano se especializa em pediatria, no outro em obstetrícia e no último em clínico geral. Todo médico cubano que está aqui (no Brasil) é formado nestas três áreas. Aqui, eu atendia o Programa de Ginecologia do Morro Alto. Colocava DIU e também fazia consultas de obstetrícia.

JC - HÁ COMO TRAÇAR UM COMPARATIVO DO SISTEMA DE SAÚDE DO BRASIL COM O DE CUBA?
Dalcia
: Aqui o Sistema Único de Saúde é parecido com o sistema cubano, de sempre pensar na saúde do povo, sem interesse. Esse é o jeito do povo cubano, sempre de atender com gratidão e percepção atender bem as pessoas quando elas mais precisam. O cubano queria resolver o problema de saúde do brasileiro e por isso foi criado o Mais Médicos. Por isso o cubano veio para cá. Porque quando a gente se formou, tivemos como compromisso de prestar assistência médica a qualquer país do mundo. O Brasil precisou e Cuba se colocou para ajudar, em primeiro lugar - como sempre faz.

JC - PORQUE A SENHORA INGRESSOU NO MAIS MÉDICOS?
Dalcia:
Quando o Brasil fez a convocatória, e quando você se forma há a filosofia de trabalhar e prestar auxílio em qualquer lugar do mundo, resolvi aceitar essa experiência para ajudar as pessoas. Em Cuba, é feito uma espécie de exame de avaliação de médicos com maior experiência, que já prestaram ajuda em outros países e que também tem conhecimento de outros idiomas. Me enquadrei nos quesitos e entrei por vontade própria para conhecer outra cultural, porque eu já conhecia a da Venezuela, e queria ajudar o Brasil.

JC - QUAIS ERAM AS CONDICIONANTES PARA INGRESSAR NO PROGRAMA?
Dalcia:
Era apenas ter dez anos de experiência, já ter trabalhado em outro país e passar no exame de português - de linguagem e de medicina.

JC - COMO A SENHORA RECEBEU A NOTÍCIA DE QUE O GOVERNO CUBANO HAVIA ROMPIDO O CONVÊNIO E QUE TERIA QUE REGRESSAR A CUBA?
Dalcia:
Desde o momento em que o presidente de agora, que venceu mas ainda não assumiu, eu já sabia que as coisas iam mudar. Ele sempre falou muito mal dos médicos cubanos, que ele não reconhecia que os médicos cubanos eram médicos e que teriam que voltar para Cuba. Nós não viemos por política. Nós viemos para tentar resolver o problema de saúde precária que tinha o Brasil. Tentar arrumar, tentar ajudar com a saúde. Mas um médico, eu, que sou formada e que tem uma gratidão imensa pela nossa revolução, fico chateada. Foi um contrato de trabalho feito com médicos diplomados, com avaliação, entendeu? Eu fico chateada porque não é justo. Mas eu sabia que ele ia tentar impor essas condições e o governo cubano não ia aceitar. Quando eu firmei contrato, quando todo médico cubano firmou contrato, a gente concordou com esse contrato. Ele (Bolsonaro) não tem que se meter, não tem que mexer com a economia nem com a decisão de um país. Ele tem que tentar arrumar a Saúde e a Educação do Brasil.

JC - A SENHORA VÊ ESSE DISCURSO DO NOVO PRESIDENTE COMO UMA FORMA DE INGRATIDÃO AO TRABALHO DOS MÉDICOS CUBANOS NO BRASIL?
Dalcia:
Em partes. O médico cubano não trabalha por gratidão. O médico cubano trabalha porque gosta, de coração. Quando se é médico não se pode esperar agradecimentos por aquilo que você fez. Eu sei que dei o melhor de mim aqui. Mas, sim, há ingratidão. Quando os médicos brasileiros não quiseram trabalhar no interior do país, na parte precária, o médico cubano se dispôs a isso. Veio para cá, largou sua família, seus filhos, tudo o que tinha lá....
 
JC - COMO A SENHORA ANALISA AS NOVAS CONDICIONANTES ANUNCIADAS PELO PRESIDENTE ELEITO PARA QUE O CONVÊNIO DO MAIS MÉDICOS COM CUBA FOSSE MANTIDO?
Dalcia:
Absurdas! Absurdas! Primeiramente, para o pessoal que não sabe, o exame do Revalida não é feito no Brasil a cada ano. Agora, é feito a cada dois anos. Eu tenho colegas médicos aqui que se casaram e ficaram aqui. Eles fizeram o Revalida no ano passado e ainda estão esperando para fazer a parte prática. Este ano, 2018, ainda não foi feita a Revalida, vai ser só em 2019. Eu quero ficar, mas o que eu vou fazer nesse um ano sem emprego? O Mais Médicos não é só do Brasil com Cuba. Aqui tem médicos argentinos, equatorianos, bolivianos e todo mundo é Mais Médicos e não fazem a Revalida. Mais Médicos não precisa fazer a Revalida. Ele (Bolsonaro) quer que só os cubanos façam. Não sei qual é o problema que ele tem com o governo de Cuba, porque não é para ter. Medicina e Saúde não têm que ter política no meio. É pelo bem do povo, da população pobre...

JC - O QUE A SENHORA PODE FILTRAR COMO VERDADE E MENTIRA DE TUDO QUE VEM SENDO COMPARTILHADO?
Dalcia:
A pessoa que não conhece, não pode opinar sobre um médico cubano, a população cubana e o governo de Cuba. Antes de vir para cá eu assinei um contrato. Em meu país, que muitas pessoas não conhecem, em Cuba a Educação e a Saúde são de graça. Todo mundo que quiser estudar, consegue. Não tem que pagar, não tem escola privada, não tem hospital privado. Eu estudei de graça, a minha vida toda. A minha filha estuda de graça. Eu estou aqui, mas não estou preocupada com os problemas de escola e saúde da minha filha, porque quando eu assinei o contrato eu concordei em doar parte do dinheiro que eu receberia, dar para Cuba. São para obras sociais e todo povo de Cuba continua estudando. Somos um país pequeno, mas rico em conhecimento, rico em profissionais, mas como é um país que está bloqueado pelos Estados Unidos, tem problemas na parte econômica. Então, o modo que tenho de ajudar o meu país é dando uma parte do meu salário, como todo médico que está aqui. Então, na parte política, ele não tem o que falar e está errado em querer que Cuba aceitar essas condições que são absurdas. Ele tem que se preocupar mais um pouco com a Saúde do Brasil.

JC - PARTE DO SALÁRIO DOS MÉDICOS CUBANOS NO BRASIL REALMENTE RETORNA À CUBA?
Dalcia:
Sim, porque nós concordamos com isso. Algo em torno de R$ 7 mil dos R$ 11 mil que eu recebia - mais ou menos.

JC - SEUS FAMILIARES NÃO PODERIAM VIR AO BRASIL?
Dalcia:
Poderiam. Eu tenho toda a documentação para trazer minha filha e minha mãe. Agora, que eu iria à Cuba em férias, retornaria ao Brasil com as duas. Mas, agora por conta do rompimento do contrato, elas não virão mais. Então, isso é uma mentira, quem quiser pode trazer sua família.

JC - O QUE A SENHORA PENSA SOBRE ESTE TESTE DE CAPACIDADE (REVALIDA)?
Dalcia:
É absurdo obrigar. Os profissionais do Mais Médicos do mundo inteiro são reconhecidos como médicos, mas os cubanos, para ele (Bolsonaro), não. Nós temos que fazer o Revalida para provar meus anos de carreira médica.

JC - É POSSÍVEL QUE OS GOVERNANTES TENHAM PENSADO APENAS EM SEUS PRÓPRIOS IDEIAIS POLÍTICOS, DEIXANDO DE LADO O DIÁLOGO E OS REAIS INTERESSES DA POPULAÇÃO ASSISTIDA PELOS MÉDICOS?
Dalcia:
Pode ter faltado um pouco de conversa sim, mas também tenho que defender o meu país.  Faltou diálogo da parte do presidente do Brasil, porque se você é o presidente e faz uma proposta que eu não concordo, você pode negociar. Poderia ter feito de outra forma. O meu país sabe o que está fazendo e o que o Brasil precisa. Acho que ele (Bolsonaro) não sabe o que o Brasil precisa.

JC - COM QUAL SENTIMENTO A SENHORA ENCERRA SEU CICLO NO MAIS MÉDICOS EM BALNEÁRIO PIÇARRAS?
Dalcia:
Com tristeza. Deixo muitas amizades aqui. Eu gosto muito da minha população de trabalho e eles também gostam muito de mim. Houve muitas manifestações de carinho, já chorei um monte...

JC - NO BRASIL, PARA QUAL REGIÃO A SENHORA OBSERVA QUE O TRABALHO DOS MÉDICOS CUBANOS FARÁ MAIS FALTA? 
Dalcia:
Com certeza nas regiões onde estão as pessoas mais pobres, mais necessitadas e que precisam de um médico que olhe nos olhos e compreenda um pouco mais do que a dor momentânea.

JC - SERÁ POSSÍVEL SUPRIMIR ESSA DEMANDA COM PROFISSIONAIS BRASILEIROS?
Dalcia:
O número é bem grande, algo em torno de 8 mil médicos. Eu sei não posso dizer porque desconheço as estatísticas dos estudantes de medicina, mas acho bem difícil isso acontecer - momento. Talvez de uma forma crescente, até porque o que precisa ser transformado é a mentalidade dos profissionais para que ingressem nas áreas mais pobres do Brasil.






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