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Everton Altmayer

A primeira colônia italiana do Brasil

07 Fevereiro 2018 13:51:00

No dia 12 de janeiro deste ano de 2018, a presidência nacional sancionou um projeto de lei que atribui à cidade de Santa Teresa, no Espírito Santo, o título equivocado de município pioneiro da imigração italiana no Brasil. Equívoco? Sim. A Lei Federal 13.617/2018, sancionada pelo presidente Michel Temer e publicada no Diário Oficial da União, infelizmente não se baseia em fatos históricos. Os principais motivos do equívoco são dois. O primeiro, a escolha por Santa Teresa, que se baseou na data de chegada do navio La Sofia ao Espírito Santo, ligado àquela que ficou conhecida como Expedição Tabacchi, ocorrida em 1874. Todavia, a expedição foi chefiada por um cidadão austríaco natural de Trento e chamado Pietro Tabacchi e a viagem foi feita com maioria absoluta de imigrantes austríacos. O segundo, desconsiderar a primeira experiência de colonização com imigrantes de língua italiana, ocorrida em 1836 (ou seja, 38 anos antes de 1874), com a fundação da Colônia Nova Itália em território onde atualmente se encontra o município catarinense de São João Batista.

  Então por que Santa Teresa? Não é de hoje que alguns capixabas têm divulgado ser Santa Teresa a "primeira cidade italiana do Brasil". O problema não está na reivindicação em si, mas no material usado para tal argumentação. No ano de 2015, o Blog Tiroleses do Brasil já havia alertado sobre o equívoco. O documento que garantiu à cidade capixaba o título foi, infelizmente, mal interpretado do ponto de vista histórico. Trata-se de um pedido de ressarcimento escrito em português e feito em nome de um colono tirolês chamado Francesco Merlo (portanto, um austríaco de língua italiana) que queria a devolução do dinheiro gasto para emigrar da Europa para o Brasil a bordo da Expedição Tabacchi de 1874. No primeiro trecho seu pedido, consta a seguinte informação: "Francesco Merlo, colono italiano estabelecido na Colônia de Santa Leopoldina, no Districto de Timbuhy à margem da estrada de Santa Thereza, que tendo sido por Pedro Tabaqui [sic] em Trento na Itália comunicado para vir para seu estabelecimento a fim de ser colono".

O problema está exatamente na "comprovação", isto é, na interpretação do documento. Isso só é possível a partir dos fatos históricos. Talvez a "pista" mais óbvia esteja no próprio documento! Ali encontremos a informação sobre o imigrante ter pedido a restituição do valor que gastou para imigrar: 122 Florins (fiorini). Bastaria perguntar: qual era a moeda corrente do então Reino da Itália em 1874? Ora, era a Lira Italiana. Mas o imigrante pagou a passagem com 122 florins. E qual nação utilizava o florim? O Império Austríaco! De fato, Francesco Merlo chegou ao Brasil em 1874 a bordo do navio La Sofia, juntamente a esposa Dalila Cappelletti e mais quatro filhos, saídos da localidade de Covelo, no Tirol Italiano, parte meridional de uma região que pertenceu unida à Áustria de 1363 a 1918 (555 anos) e atualmente compõe a Província Autônoma de Trento, na Itália. Todos os membros de sua família entraram no Brasil apresentando passaporte austríaco, assim como a maior parte dos primeiros colonizadores de Rodeio. O pedido de Merlo é datado de 1874, mas foi deferido pelo então presidente da Província do Espírito Santo em 1875. Não foi escrito pelo imigrante e isso se nota facilmente ao compararmos a caligrafia. Merlo apenas assinou o documento, haja vista que o valor gasto com a viagem não foi reembolsado por Pietro Tabbachi.

Como era possível que um imigrante austríaco fosse identificado como "colono italiano" e que no documento conste a informação "Trento na Itália"? Por mais estranho que possa parecer em um primeiro momento, tais informações não indicam contradição em se tratando do Tirol e do Império Austríaco.







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