CINEMA E FILOSOFIA

LEITORES CINÉFILOS – O CAPITAL

CADERNO ESPECIAL QUE ANALISA DE VÁRIOS PONTOS UM SUCESSO CINEMATOGRÁFICO

Sandro Luiz Bazzanella e Danielly Borguezan
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Foto: Reprodução/Internet
REPRODUÇÃO CAPA

Sandro Luiz Bazzanella  e Danielly Borguezan

Na modernidade a economia adentra o espaço público e apresenta-se na forma da “economia política”. A economia compreendida e vivenciada pelos gregos antigos na esfera da vida privada (oikonomia) como conjunto de relações e situações vinculadas a manutenção da vida biológica dos indivíduos, dos membros da família, passa a conduzir e, sobretudo decidir sobre a manutenção e potencialização da vida das populações e dos indivíduos. Tal condição se tornou hegemônica na atualidade a ponto de subverter a própria relação instaurada pela modernidade apresentando-se na hegemonia da política econômica. Estamos vivendo em tempos de “predomínio da economia sobre todas as esferas da vida política e social (...)  e isso nos leva a refletir sobre a inédita relação que tal processo instaurou entre as modalidades de existência de cada indivíduo e a gestão econômica global” (STIMILI,  2015, p. 77/105).

A política econômica em curso se caracteriza entre outras possibilidades pelas seguintes perspectivas: a) Circunscrição e circulação global da economia financeirizada.  Ou seja, o capital não tem pátria, circula livremente e virtualmente nas bolsas de valores; b) A economia financeirizada desvencilha-se cada vez mais das formas tradicionais de trabalho e de obtenção de mais valia calcadas em categorias profissionais. Articula-se sobre o definhamento das formas tradicionais de trabalho e impõem a lógica da inovação promovendo formas virtuais e, maximizando as formas informais de trabalho. c) Definha a passos largos “a jornada de trabalho”. Paradoxalmente o trabalho invade todos os espaços e momentos da vida dos indivíduos, invade os fins de semana, os feriados, e até a moradia. Assim o faz, em detrimento das próprias normas trabalhistas, e com o aval de instrumentos e tecnologias, utilizados como forma de potencializar tais atividades, como os computadores, os e-mails, whatsApp e os acessos virtuais aos dados da atividade empresarial desempenhada. d) Os indivíduos se submetem a “mais valia” absoluta consumindo diuturnamente a si mesmos na vã tentativa de se apresentarem úteis a lógica do capital; e) A remuneração e reprodução vertiginosa da economia financeirizada se estabelece pela especulação e cobrança de juros e, sobre a plena produção e consumo das massas de indivíduos; f) Na sociedade do conhecimento, da informação e do espetáculo o único

responsável pelo sucesso, ou pelo fracasso é o indivíduo que investiu, ou descuidou dos cálculos, dos jogos de perda e ganho que as relações impõe. É preciso, portanto, tornar-se empreendedor de si mesmo. g) O capital financeiro ao não reconhecer barreiras e fronteiras nacionais à sua circulação promove a redução da soberania dos Estados-nações na definição e condução da política econômica, e assim decisões estatais obedecem à dinâmica dos interesses de grandes investidores internacionais; h) A especulação financeira invade, determina a forma das relações individuais. Administra a vida e a morte de populações a partir de cálculos de custo e benefício de auto-reprodução. Nas palavras da filósofa italiana, Elettra Stimili, “o que hoje mudou foi substancialmente o fato de que (...) a vida inteira e a própria capacidade humana de conferir a ela um valor. Este fenômeno fica bem evidenciado no processo atual de financeirização da economia”. (2015, p. 77/105).

 

A obra cinematográfica “O Capital”

 

Estas são algumas das abordagens anunciadas na obra cinematográfica francesa “O Capital” (Le Capital), lançada em 2013, a qual nos coloca diante da crueldade das formas de extração de valor, das relações humanas na atualidade e sobretudo, da forma como a visão financeirizada do mundo invade a totalidade das dimensões da existência humana, e das relações entre os indivíduos. Promove dessa forma, o esvaziamento do espaço público como forma qualificada e de reconhecimento humano, para potencializar o espaço privado como o locus por excelência do consumo seguro advindo das ininterruptas mensagens, das imagens espetaculares que circunscreve a guerra de todos contra todos, na luta pela sobrevivência. Estamos em pleno campo de concentração em constante estado de exceção que se apresenta como paradigma da vida das sociedades contemporâneas, na perspectiva do filósofo italiano Giorgio Agamben (1942-). 

 

O dinheiro

 

Diante de tais prerrogativas exordiais, seguem algumas análises sobre passagens do filme.  A cena inicial, logo após os créditos do longa, apresenta o presidente de importante instituição financeira acometido de mal súbito num campo de golfe. Um dos principais acionistas ao socorrê-lo, se apressa em ordenar aos demais funcionários da instituição presentes no local: “Caiu no campo de golfe, nenhuma palavra, a ninguém”.  Neste sentido, é possível concluir que os prováveis motivos da inusitada ordem sejam: a) controlar a cena e calcular a sanha dos acionistas da instituição financeira em seus jogos de poder para assumir o controle da instituição; b) preservação da imagem de solidez da instituição, evitando especulações e instabilidades entre acionistas e investidores.

Na sequência da cena, um dos executivos de confiança presente no local faz referência a uma das frases preferidas do executivo enfermo: “O dinheiro é um cão que não pede carinho, lance a bola cada vez mais longe e ele a traz indefinidamente.” A frase é impactante na medida em que coloca em jogo variáveis interpretativas sobre “o que é o dinheiro”:  a) é uma representação simbólica que impõe, induz, potencializa, ou mesmo reduz comportamentos; b) desencadeia desejos, vontades em possuí-lo, mesmo que para isto exija esforços e ações muitas vezes despropositadas; c) submete os seres humanos ao consumo de si mesmos, de suas energias psíquicas e corporais ao limite; d) alimenta a esperança de que em algum momento se possa alcançá-lo de forma suficiente para que se possa “curtir a vida”; e) representa a “doce” tirania ao qual os seres humanos se submetem quase que (ir)racionalmente; f) a atração do dinheiro na forma de puro meio, o qual impõe diuturnamente formas de vida como expressão de meios sem fim.  g) do ponto de vista jurídico, foi só através “do dinheiro” que a troca passou a versão original do comércio, a qual evoluiu para a modalidade de compra e venda. A moeda que inicialmente, consistia em um bem ou mercadoria capaz de ser trocado por qualquer outro, e não apenas, como acontecia na troca, por um bem determinado, serviu de padrão para as trocas além de possuir um  valor intrínseco. (CHAGAS, 2016. p 40)

Na obra cinematográfica, a ausência do presidente demonstra provocar rumores, instabilidades, insatisfações e desconfianças no mercado financeiro. Sob tal perspectiva, a instituição financeira vigia, controla, determina, administra a vida, e também o tempo de vida útil e a morte de seu presidente, bem como articula os jogos de poder internos em relação a sua sucessão. Afirmam literalmente: “Confiemos na metástase do presidente” - uma vez que o fora diagnosticado com câncer nos testículos. Outrossim, atentemos para o fato de que o órgão afetado pela doença degenerativa anunciada no filme, assume em nossa cultura a ideia de virilidade, de força, de reprodução. A mensagem é clarividente: Para presidir a instituição financeira e os agressivos jogos e artimanhas do mercado é preciso força, consistência, perspicácia. Ao menor sinal de fragilidade, a retirada do presidente necessita ser calculada e providenciada. Em qualquer uma das opções o fundamental é preservar os fundos, os investimentos e a solidez financeira da instituição, bem como de seus acionistas. Em frase literal do principal acionista da instituição: “É preciso preparar o futuro e tranquilizar os acionistas”. Tudo é reduzido à meio em função da centralidade da acumulação do capital e, por extensão do “gozo” dos acionistas.

 

As instituições bancárias

 

Atentemos agora para o nome do banco representado na obra: “Fênix”.

Fênix é um pássaro pertencente à mitologia grega antiga e que de tempos em tempos entrava em autocombustão para renascer das cinzas posteriormente. A ave se caracterizava pela sua imponência e, seu ciclo de vida, morte e renascimento. Sua outra característica consiste no  símbolo de força e, sobretudo imortalidade. Assim, se paradoxalmente por um lado os investidores advogam pela crescente liberdade de mercado exigindo menos intervenção do Estado na regulação da economia, e menos barreiras - nos moldes do princípio laissez faire laissez passer-  tornando as fronteiras de povos e países mais porosas, por outro lado anseiam por segurança de seus investimentos.

O sentimento de segurança se estabelece na solidez dos fundamentos de mercado e de suas instituições, na força e perspicácia que possuem para submeter à soberania de povos e países. A concentração com conglomerados empresariais multinacionais, inclusive instituições financeiras, demonstra-se fenômeno presente em todo o globo, sendo que as operações bancárias também se internacionalizaram e, com efeito, as normas que as regulam, protegendo interesses difusos, públicos e particulares, concomitantemente. (CHAGAS, 2016, p. 585)

Outrossim, a garantia de que se houver redução dos lucros advindos da atividade de especulação, o rombo possa ser coberto pelos cofres públicos. A mão invisível do mercado financeiro se sente segura quando amparada pelo Estado, mesmo que as garantias estatais aos contratos e ao pagamento de juros impliquem na redução do acesso a renda, da seguridade social, da saúde e da educação de sua população.

Argumenta neste sentido, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-): “O Estado tem, portanto, duas coisas a fazer. Primeiro, subvencionar o capital caso ele não tenha o dinheiro necessário para adquirir a força produtiva do trabalho. Segundo, garantir que valha a pena comprar o trabalho, isto é, que a mão de obra seja capaz de suportar o esforçar do trabalho numa fábrica. Portanto, ela deve ser forte, gozar de boa saúde, não estar desnutrida e ter o treinamento necessário para as habilidades e os hábitos comportamentais indispensáveis ao oficio industrial. (2010, p. 37).

 

A financeirização das relações pessoais

 

Ainda nas cenas iniciais apresenta-se um diálogo entre a esposa e seu marido (pretenso executivo cotado para ser o sucessor do presidente enfermo).  A esposa convida o marido a mudar de vida, a voltar a lecionar, a escrever seus livros, a ter “uma vida normal”, sugerindo que a vida profissional do marido na condição de executivo da referida instituição financeira consumia sua vida. Convidado a abandonar a vida profissional, o executivo responde que seu objetivo é ganhar mais dinheiro. O dinheiro, segundo o personagem, é uma forma viável e possível para conquistar o respeito dos seus pares.  Nesta breve cena, o casal apresenta em toda sua intensidade os argumentos da financeirização das relações pessoais, profissionais e da vida em sua totalidade. O respeito pela própria condição pessoal e profissional não advém das virtudes conquistadas profissionalmente, ou do comprometimento com as questões públicas, mas pode e é comprado. Aquilo que pode ser comprado apresenta-se na forma da mercadoria e, como tal pode ser vendido, ou mesmo descartado quando se tornar obsoleto, ou desinteressante nos cálculos de custo e benefício das relações humanas.

Na transição do cargo de presidente do banco Fênix, o então presidente que esta deixando o cargo, afirma aos acionistas presentes: “Ele servirá as finanças e ao público com respeito à ética e a política para que o Fênix não cesse de renascer.” A referida frase apresenta em toda sua  literalidade as contradições e paradoxos nos quais se circunscreve a dinâmica da economia financeira. Instituições economias (bancos) nãos servem ao público, mas sim o oposto: se servem de seus clientes para aumento do próprio capital. Utilizam especulativamente seus recursos para alavancar suas ações, para fazer empréstimos com taxas de juros vantajosas e, por extensão maximizar seus lucros.  Neste contexto a ética e a política são evocadas demarcando de forma inequívoca o império da gestão, da racionalidade administrativa sobre a vida útil e da morte de indivíduos e populações como oportunidades de acúmulo de capital.

Em outra passagem do filme, também se apresenta de forma lapidar e sintomática, quando citam a denominação da casa do principal acionista do banco Fênix, como sendo: “Palácio das intrigas e das punhaladas pelas costas”. Novamente reafirme-se que na lógica das relações impostas pela gestão econômica e financeirizada das relações humanas e sociais se apresentam sob os imperativos do pragmatismo e do utilitarismo. No cálculo das relações e nos jogos de poder, sobreviverá ou se beneficiará aquele, ou aqueles que melhor calcularem as probabilidades das jogadas futuras. Tais jogadas implicam na eliminação do outro, ameaça constante ao exercício do poder, as condições de possibilidade de compra do respeito pessoal e social.  O outro é apenas um meio, ou mesmo um obstáculo para a realização, ou alcance dos interesses de grupos e indivíduos.

Sob esta ótica, a consideração que o sociólogo polonês, Zygmunt Bauman (2004, p. 29),  faz para os relacionamentos é pertinente: “... a primeira coisa que os bons acionistas (...) fazem de manhã é abrir os jornais nas páginas sobre mercado de capitais para saber se é hora de manter suas ações  ou desfazer-se delas. É assim também com outro tipo de ações, os relacionamentos. Só que nesse caso não existe um mercado em operação e ninguém fará por você o trabalho de ponderar as probabilidades e avaliar as chances (a menos que você contrate um especialista, da mesma forma que contrata um consultor financeiro ou um contador habilitado...)”.

Assim, a lógica da economia invade todos os espaços vitais e relacionais. Com a confirmação  de promoção ao cargo de presidente do Banco Fênix, os sogros do personagem Marc Tourneuil, interpretado pelo ator Gad Elmaleh, visitam-no. Na rápida conversa com seus sogros apenas duas questões se anunciam: a) Lhe apresentam uma proposta de investimento possível com rendimentos módicos na lógica da economia popular, ou social; b) ato contínuo perguntam-lhe qual o valor de seu salário a partir de então.

A financeirização da vida e das relações invade também as relações familiares. Do mesmo modo, a relação com o filho também passa a ser financeirizada. O garoto recebe de presente um cartão de crédito com recomendações quanto ao limite de gastos, ao qual responde com indiferença. A relação financeirizada entre pai filho é marcada pela tentativa de “compra” por parte do pai da atenção do filho, mas também como forma de compensação em relação a sua ausência cotidiana. Por outro lado, o garoto ao ganhar o cartão demonstra a ausência de compreensão em relação a forma como se produz e se distribui a riqueza, ao valor do trabalho que produz os bens e a riqueza desigualmente distribuída socialmente. Ainda neta direção, Marc Tourneuil, em diálogo com sua esposa profere as seguintes sentenças: “Para você o dinheiro é passado para mim é o futuro”. “Menor o salário menor o respeito”. “Assim como você eles querem me usar”.

 

O Paradoxo: Porque não pedimos por ética na economia?

 

A referida obra ainda apresenta o seguinte argumento: “No mundo das finanças o que difere o que é legal do que é ilegal é somente o preço.” Aqui se apresenta em toda sua contundência, adágios e comentários populares, reveladores desta concepção, entre eles: “Todo homem tem seu preço”; “Se você tiver dinheiro não vai ser preso”; “Para o povo as leis são diferentes”; “Aos amigos do rei as benesses da lei. Aos inimigos, os rigores da lei”.

 É preciso controlar pensamentos, vigiar comportamentos, antecipar as ações, “vasculhar o lixo das negociatas entre interesses públicos e interesses privados.” Ademais, o capital financeiro não tem interesse em empréstimos sociais na medida de seu baixo retorno financeiro. As questões sociais, de micro-crédito necessário ao incentivo da economia popular são responsabilidades do Estado.  O banco Fênix, instituição financeira que se alimenta da especulação, se propõe paradoxalmente “a uma abordagem ética” operando por meio do estrangulamento o financiamento social e, em contrapartida valorizando mercadologicamente, ou repassando para a sociedade seus “ativos tóxicos”, que contaminam a saúde financeira da instituição.  A esta forma de conduta os acionistas do banco se referem como uma abordagem com um pouco de dignidade ética.

Em outra passagem do longa, há uma conversa entre um grupo de investidores norte americanos do banco Fênix, os quais apresentam as seguintes frases lapidares: “Somos seus únicos amigos”; e após um conjunto de exigências (entre amigos) anunciam: “os meios que irá  utilizar, é problema seu”; “caçamos em bando... precisamos que se junte ao bando”.  Aqui se apresenta uma vez mais a agressividade com as quais operam os acionistas da referida instituição. A amizade apresenta-se de forma pragmática entre executivos do banco e acionistas, e isto implica em jogos de poder, em cálculos estratégicos de vida, ou morte entre pares como forma de manter o controle e as benesses que podem ser adquiridas a partir da manutenção de tal condição.  A atividade do bando no alcance de seus objetivos não reconhece outras regras a não ser as regras da ação agressividade conjunta na manutenção dos próprios interesses.

Desdobramento do argumento acima destacado apresenta-se em dado momento do filme outras reflexões, nas seguintes passagens: “Dependemos de um fundo especulativo que viaja a velocidade da luz”; “Não vão nos julgar a partir de uma suposta ética bancária, mas a partir das cifras”. “Os acionistas são ferozes”; Corrobora com estas reflexões Stimilli: “As operações econômicas alcançaram um grau extremo de abstrações e são cada vez mais dependentes de transações financeiras que determinam o andamento mundial de modo aparentemente autônomo com relação à economia real e às existências individuais”. (2015, p. 2).

Em comunicado à todos os seus colaboradores, diga-se também funcionários, o banco Fênix promove programa de demissões voluntárias, intitulado: “Plano Social”, assentado em três eixos: 1. Ajuste de pessoal; 2. Obrigação de competitividade; 3. Futuro da empresa. O presidente do banco propõe ao colaboradores/funcionários: “Deixemos o passado para trás e juntos iniciemos um diálogo enriquecedor para fazer o banco Fênix o número Um  - para os seus clientes é claro - mas sobretudo para as pessoas que trabalham aqui... é um debate em família que renovará nossa energia coletiva... para que o Banco Fênix renasça de suas contradições internas... meus amigos é hora de abrirmos nossos corações e nossas mentes...”.

Neste discurso de duplo sentido, para os colaboradores/funcionários alimentando esperanças de garantia de seus empregos, de ascensão na carreira, de aumento salarial, mas ao mesmo tempo preparando os espíritos para as demissões exigidas pelos acionistas, a mensagem do banco demonstra a racionalidade calculadora que subjaz sua ação. Ademais, as demissões são acordadas entre acionistas e governo contemplando interesses financeiros e políticos em detrimento do trabalho e do acesso a renda a centenas de milhares de funcionários do banco.

 

O crédito 

 

O filme apresenta entre outros argumentos, discretamente, práticas delitivas e tipificadas como a lavagem de dinheiro, previstas pelas Leis 9.613/98 (crimes contra o sistema financeiro), Lei 7.492/86 (crimes contra a ordem tributária econômica e outras relações de consumo) e Lei 8.137/90, o qual protegem em comum a incolumidade do Estado e do erário público.

O universo da economia financeirizada não admite ser tributada; fere diretamente os interesses sociais; lesa a patrimônio público e, distorce a relação entre produção, acumulação de riquezas e os interesses sociais e comunitários. “É nas crises que se formam as grandes fortunas, sobretudo onde se tomam certas precauções” afirma o personagem central no filme.  “E sem a rede de relacionamentos sempre crescente entre credores e devedores, a economia global de hoje não funcionará bem”. (FERGUSON, 2010, p. 34). “O crédito e o débito, em resumo, estão entre os blocos essenciais da construção do desenvolvimento econômico.” (Idem, p. 64).

Em outras palavras, assim são os títulos creditícios. “A função fundamental dos títulos de crédito, como a evolução histórica revela, é a circularidade (...) trata-se de instrumento de mobilização de economias individuais e de sua transformação em capital produtivo. Indispensável para a sobrevivência econômica de um país há que ser adequado às realidades históricas e necessidades econômicas, protegendo-se cada vez mais, a aparência segura que o crédito inspira o que incentiva sua circulação”. (CHAGAS, 2016, p. 369). Assim, a regulamentação dos títulos deve guardar sintonia com a legislação internacional (cosmopolita), já que as relações comerciais não são apenas nacionais, e os títulos circularão além da fronteira. (Idem, p. 386)

O filme demonstra, portanto, que a centralidade das preocupações da economia financeirizada se constituem na manutenção e potencialização dos próprios interesses: Em entrevista com presidente do banco pergunta-lhe o repórter: “Senhor Tourneuil, o que acha desta campanha pelo luxo?”, ao que responde: “Eu quero dizer que sou a favor da democracia em tudo...”. “O que isto significa?”, “A democratização do lucro é um solução para toda a economia do país”.  Nesta direção, nos adverte Zygmunt Bauman (2010, p. 13): “Se a democracia moderna nasceu das necessidades e ambições de uma sociedade de produtores, e se as ideias de ´autoderminação´ e ´autogoverno´ foram construídas na medida das práticas de produção, a grande questão (...) é saber se tais ideias podem sobreviver à passagem de uma sociedade de produtores para uma sociedade de consumidores.

Ainda nesta direção é possível considerar as fragilidades da democracia de mercado e as crises que se abatem sobre os mais diversos governos mundo afora. E, neste sentido, novamente o sociólogo polonês nos auxilia a compreender as dificuldades que circunscrevem a concepção de democracia na atualidade: “Provocar uma crise é um truque para consolidar o poder”.  Ou seja, “A presente crise de crédito não sinaliza o fim do capitalismo, somente o sucessivo esgotamento de uma forma de pastagem.” (BAUMAN, 2010, p. 13).

A velocidade e, a virtualidade do capital financeirizado não admite atrasos ou lentidão em sua lógica de acúmulo. Nesse sentido, com relação aos idosos, a obra cinematográfica anuncia duas perspectivas: 1) Como o empecilho ao processo produtivo e a partilha das riquezas socialmente produzidas. “Engordam seus fundos de pensão espremendo os mais jovens... são mercadores de escravos. Os velhos estão por toda parte incidem sobre os fundos públicos e privados pressionando por demissões”, assim reflete o personagem Tourneuil. 2) Por outro lado, se apresentam como potenciais consumidores de serviços majoritariamente de saúde e lazer, o que pode render significativamente ao sistema financeiro internacional.

Novamente um dos principais acionistas do banco Fênix em conversa com o presidente profere a seguinte sentença: “Sabe Marc as pessoas acreditam que o dinheiro é um instrumento. Estão erradas, o dinheiro é patrão, quanto melhor o serve melhor ele te trata”. “O dinheiro eletrônico de hoje pode ser transferido do nosso empregador para a nossa conta bancária e daí para nossas lojas favoritas sem jamais se materializar fisicamente. É esse dinheiro `virtual´ que agora domina o que os economistas chamam de suprimento de dinheiro(...). Atualmente, o caráter intangível da maior parte do dinheiro é talvez a melhor evidência da sua verdadeira natureza”. (FERRGUSON,  2013, p. 32).

Ainda nesta direção, argumenta o historiador francês: “O dinheiro é uma questão de confiança, talvez de fé: confiança na pessoa que está nos pagando, confiança na pessoa que emite o dinheiro que ele usa, ou na instituição que honra os seus cheques ou as suas transferências. O dinheiro não é metal. É confiança registrada (...), o nada pode servir como dinheiro também, nessa era eletrônica.” (FERGUSON, 2013, p. 33).  “Não é coincidência que a raiz da palavra “crédito” seja a palavra latina credo, “Eu acredito”. (FERGUSON, 2013, p. 34). Da mesma forma, o direito empresarial – ramo do direito comercial, o qual em nosso pais regulamenta as atividades de “mercancia” desde o século XIX, assim, conceitua o crédito e os títulos de créditos, como sendo “formados pelos elementos tempo e confiança. O crédito nasceu a partir das necessidades do trato comercial de obter uma circulação mais rápida que a permitida pela moeda manual, visando facilitar a negociação da riqueza pela troca de bens no tempo” (CHAGAS, 2016, p.363).

Num determinado almoço em família, perguntam à Marc Tourneuil: “Se tiver dinheiro onde devo investir?” Ao que responde sem titubear o presidente do banco: “Em sua família. Invista tudo. Os bancos jogam com seu dinheiro e te deixam sem nada”. Outro membro da família impressionado com as altas somas salariais, pergunta: “Quando alguém ganha 150 mil euros por mês, com que ele gasta? O questionamento em torno da vultosa soma salarial, expressa a complexa relação entre acúmulo de capital e seu oposto, a ausência desta possibilidade. Mas, também expressa o questionamento em torno da vontade e do desejo humano de acumulação financeira e os limites de consumo de um ser humano. Pode-se ainda conjecturar que este paradoxo se aprofunda quando se tem no horizonte de análise os limites ambientais em curso. O tio de Marc Tourneuil lhe faz um conjunto de ponderações incômodas:  “Seu banco demite pessoas e lucra com as demissões.  Sangrou as pessoas três vezes:  a) a bolsa quer sangue. Você realoca e funcionários perdem seus empregos; b) Você os sangra como clientes; c) Pressiona os estados endividados e quem acaba pagando é o cidadão. E, como funcionário, cliente e cidadão você o fere três vezes. O dinheiro contamina tudo!”

Aos incômodos questionamentos do tio, Marc responde: “O dinheiro não tem fronteiras o trabalho tampouco. A economia financeirizada realizou o sonho da juventude de sua geração promovendo a circulação de bens, serviços, capitais e recursos em âmbito global.  O dinheiro nunca dorme e, como leite no fogo se não o vigia evapora e é preciso demitir”. “Enriqueço os ricos e empobreço os pobres. O ideal dos banqueiros é proteger o dinheiro dos outros. Banqueiros não se denunciam. “A ética da bolsa é como a ética militar, sobrevive quem atira primeiro”.

Submissão dos Estados aos dos bancos e acionistas predadores, da ditadura dos mercados, da especulação, das agências de qualificação inimigas do poder político e, da sociedade; os estados democráticos que já não poderão governar nem controlar os bancos que os asfixiam. A doutrina anuncia que a própria regulamentação dos títulos de crédito, por exemplo, guarda sintonia com a legislação internacional (cosmopolita), já que as relações comerciais  não são apenas nacionais , e os títulos circularão além da fronteira. (CHAGAS, 2016, p.386)

Na lógica da economia não há espaço para paixões, utopias; tudo é jogo, às vezes injusto e cruel, mas um jogo planetário e ninguém pode dizer não quero mais jogar. Nos jogos há ganhadores e perdedores. Os ganhadores podem perder e os perdedores podem ganhar. Esta é beleza.

Finalizando estas reflexões, mas longe de concluir as perspectivas analíticas que o filme enseja, a estrutura financeirizada em que estamos inseridos, apresenta-se sintomática e a palavra ética é invocada inúmeras vezes e em diversas passagens do longa. Naquelas citações, o termo “ética” é apresentado referendando o cálculo dos interesses inerente aos jogos de poder dos acionistas. Ou dito de outro modo, apresenta-se em seu reverso, como impossibilidade ética diante das ações predatórias e aviltantes das relações humanas e sociais requeridos pela lógica do capital financeiro. Ou seja, a mensagem que subjaz aos discursos dos protagonistas da economia financeirizada é de que não há limites possíveis a economia. Apresenta-se como um poder transcendente que impõem e determina a vida, as formas de vida que circunscrevem a existência humana de forma inquestionável. Talvez esta entre outras variáveis e possibilidades é que justifica a ausência de exigência ética nas relações financeiras contemporâneas.

Ficha Técnica: Le Capitale (O Capital), Lançado em 4 de outubro de 2013 (1h 53min) Direção: Costa-Gavras. Elenco: Gad Elmaleh, Gabriel Byrne, Natacha Régnier; Gêneros: Drama, Suspense. Nacionalidade: França

 

Referências

STIMILI, Elettra. Entre teologia política e teologia econômica. (In) STIMILI, Elettra. Debito e Colpa. Roma: Ediese, 2015, pp.77/105. (Tradução portuguesa Selvino Assmann)

BAUMAN, Zygmunt. Vida a Crédito: Conversas com Citlali Rovirosa-Madrazo. Tradução Alexandre Werneck. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido. Sobre a fragilidade dos laços humanos. Tradução: Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

FERGUSON, Niall. A Ascensão do Dinheiro: A História Financeira do Mundo. Tradução Cordélia Magalhães. São Paulo; Editora Planeta do Brasil, 2009.

CHAGAS, Edilson Enedino. Direito Empresarial. São Paulo: Saraiva. 3 edição, 2016

 

[1] A obra cinematográfica francesa “O Capital” foi lançada em 2013, tratasse de uma adaptação do romance escrito por Stéphane Osmont. O título do livro é uma referência à obra mais conhecida de Karl Marx.

[1] Sandro Bazzanella, Professor de Filosofia e do Programa de Mestrado em Desenvolvimento Regional da Universidade do Contestado. Líder do Grupo de Pesquisa Interdisciplinar em Ciências Humanas – Cnpq; Coordenador do Grupo de Estudo em Giorgio Agamben – Universidade do Contestado. sandroluizbazzanella@gmail.com

Danielly Borguezan, Advogada, Coordenadora do Curso de Direito; Mestre em Desenvolvimento Regional da Universidade do Contestado. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Interdisciplinar em Ciências Humanas – Cnpq;  Membro do Grupo de Estudo em Giorgio Agamben – Universidade do Contestado. dany.borguezan@hotmail.com



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