PENSANDO BEM

ENTRE TAMAGOTCHIS E POKEMÓNS, ALGUMAS REFLEXÕES

Grupo de Estudos Sandro Luiz Bazzanella

Maria Benedita de Paula e Silva Polomanei
PG 17 - PENSANDO BEM ILUSTRAÇÃO.jpg
Foto: Reprodução/Internet
ILUSTRAÇÃO

No momento, estamos nos deparando com mais uma polêmica, que vem caminhando a passos largos. Trata-se da febre ocasionada pela chegada, ao Brasil, do jogo Pokémon Go, que foi lançada em julho na Austrália, em seguida nos EUA e um mês depois chegou ao Brasil. E em vinte e quatro horas chegou a ultrapassar a marca de 100 milhões de downloads, juntamente com mais outros milhões de comentários positivos, alimentando o sucesso  e comentários pejorativos, alimentando o descrédito.

As críticas vão desde a falta de segurança, perigo com assaltos, seguindo discussões que denunciam a criação de uma comunidade de zumbis. Os louvores apresentam reportagens sobre hospitais que conseguiram tirar crianças de suas camas, motivadas pelo jogo. Também teve a situação de um menino autista que se sentiu encorajado a sair de casa. E assim segue, entre críticas e aplausos, o sucesso continua e parece que tem potencial para aumentar.

Pois bem, nos anos 90 foi à febre do “bichinho virtual” o Tamagotchi que, ao completar 15 anos, em 23 de novembro de 2011 pontuou a marca de 78 milhões de usuários. Nem Hiraku Minamika, seu criador, esperava que ele se transformasse em algo tão grande. Esse bichinho precisava receber cuidados como alimentação, higiene e carinho. Seguia o curso natural de nascimento, vida e morte que poderia durar de 24 a 25 dias, desde que seu dono fosse atento, pois não poderia receber cuidados em excesso e nem limitados. Na ocasião foram criadas creches  para ajudar nos cuidados desse serzinho virtual e, até mesmo “cemitérios virtuais”.

Entre vaias e aplausos o sucesso veio, mas a febre passou, porém foram inventadas novas versões e, esses bichinhos estão até hoje no mercado, porém com menos brilho mediático, o que não instiga a vontade de tê-los. Mas, sobre as críticas e elogios, psicólogos denunciaram o perigo de graves transtornos de ansiedade, insônia e falta de socialização que o brinquedo poderia causar, podendo chegar à frustração e a depressão. No aspecto que envolvia problemas sociais, as referências iam desde a desatenção no trabalho aos acidentes de trânsito.

Após a apresentação inicial é mister partir para as análises mais pontuais, relacionadas ao jogo como instrumento mediador. Segundo Vygotsky (1898 – 1934), o jogo da criança não é uma recordação simples do vivido, mas sim a transformação criadora das impressões para a formação de uma nova realidade que responda às exigências e inclinações dela mesma. O que leva a defender o jogo como importante para o desenvolvimento saudável da criança. Já, para Agamben (2012), brincando o homem desprende-se do tempo sagrado e o “esquece” no tempo humano. Portanto, tanto para a criança como para o adulto o jogo tem suas funções, que vão desde a socialização a fantasia necessária para conviver com o tempo real e tempo imaginário.

Para Luiz Felipe Pondé, filósofo da atualidade, estamos vivendo a era pós - digital, onde a tendência dos jogos virtuais é brincar com o mundo físico, por meio da convergência entre real e o virtual. E as suas funções primordiais continuam a de desenvolvimento integral do sujeito no sentido intelectual, emocional e físico. A distração, o divertimento, também são pontos que precisam ser destacados. Para o teórico em questão, desde a idade da pedra, sempre houve a necessidade de se sentar em roda e conversar, brincar um com o outro. E quando questionado, se o jogo pode alienar ou emburrecer? Pondé afirma que não e apresenta que, infelizmente há no Brasil uma minoria que lê, que vive alienada e que não vai ser o Pokémon Go que vai aumentar ou diminuir essa população de iletrados.  Será?

As questões estão postas e, recorrendo a Agamben, é preciso profanar, tirar do sagrado e buscar compreender o que está nas entrelinhas. O Tamagotchi, quando foi criado, tinha por objetivo atingir meninas de 9 anos, acredito que para incutir a cristalização da mulher bonita, recatada e do lar. Acabou se ampliando e crianças, jovens e adultos se encantaram com o jogo. E o poder econômico se aproveitou da situação e comungando com o poder mediático fez a festa. E hoje, o que está por trás da febre Pokémon Go? Seja esperto, analise  revertendo esses acontecimentos a seu favor, brinque, jogue, se divirta, e acima de tudo, se socialize. Mas, não deixe do cuidar de si, no sentido de saber defender seus direitos, enxergar as injustiças e profanar, argumentar com propriedade, saindo do oikos (casa, campo das necessidades) indo para a pólis (praça das discussões, da politização), é o que momento exige.

 

Maria Benedita de Paula e Silva Polomanei

Mestre em Educação E docente da UNC

Grupo e Pesquisa Interdisciplinar em Ciências Humanas (CNPq)



lllll.jpg

Copyright © 2011. Todos os direitos reservados | Associação dos Jornais do Interior de Santa Catarina