Gigantes do mar tomam conta do litoral norte catarinense

Cidades como Barra Velha, Balneário Piçarras e Penha tem registrado intensa movimentação de baleias ao longo de suas costas, numa temporada que já pode ser considerada a maior de todas

FELIPE FRANCO, JORNALISTA
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O oceanógrafo acrescenta que há regras para o avistamento das baleias, normatizada pela portaria número 24 do Ibama

Elas estão por todos os lugares. Nas redes sociais, os registros se amontoam. Quem navega, volte e meia cruza com algumas. E, para quem tem um pouco de paciência e sorte, é possível ver as gigantes da beira do mar. Visita comum nesta época do ano, esta – por sua vez – pode ser considerada a maior das últimas décadas, com shows naturais ao longo de toda a costa catarinense, especialmente no litoral Norte. Diariamente, dezenas de baleias jubartes e francas são avistadas no Atlântico, denotando, entre fatores ainda desconhecidos, seu crescimento populacional.

Para a equipe técnica da Unidade de Penha do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS/Univali) – que monitora a região costeira de Barra Velha à Governador Celso Ramos - comprovadamente o número de baleias dessa temporada bateu recordes. “Desde o início do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos, em 2015, esta é a temporada com maior número de avistamentos de baleias-jubarte nas praias de Santa Catarina.  A mesma constatação é apresentada pelo Projeto Baleia Jubarte, embora não monitore de forma sistematizada a ocorrência da espécie no litoral de Santa Catarina”, frisa a oceanógrafa e gerente operacional do PMP-BS/Univali - Unidade Penha, Bruna Pissaia.

Bruna acrescenta que um maior número de baleias na região pode ser confirmado, também, “devido ao aumento no número de encalhes da espécie (jubarte). Santa Catarina lidera o ranking com 31 encalhes no primeiro semestre deste ano, representando 35% dos encalhes ocorridos em todo Brasil, que soma 84 óbitos, segundo o levantamento do Projeto Baleia Jubarte”. Na região da Barra Velha à Governador Celso Ramos, houve dois encalhes fatais até o dia 28.  

A oceanógrafa acredita que a população de baleias, principalmente jubartes, esteja em franco crescimento, resultando nas visitas acima da média. “As jubartes se recuperam do período pós-caça predatória, atividade que foi proibida no Brasil na década de 1960. Segundo dados do Projeto Baleia Jubarte há uma estimativa de população de 20 mil baleias da espécie no país, com crescimento estimado em 12% ao ano. O crescimento populacional se atribui à proibição da caça além de pesquisas e medidas para a conservação da espécie a nível nacional. Outra hipótese para o maior aparecimento das baleias é o aumento na temperatura da água do mar neste Inverno”, analisa Bruna.

Enquanto as baleias-franca utilizam a costa de Santa Catarina para ter seus filhotes, as baleias-jubarte migram até o sul da Bahia para reprodução. Mas, de acordo com oceanógrafo e coordenador do PMP-BS/Univali – Unidade Penha, Jeferson Dick, esses não são os únicos visitantes. “Esse é um período de migração de animais costeiro-oceânico, como os pinguins-de-Magalhães e costeiros como os Pinípedes (lobos, leões e elefantes-marinhos). É possível avistar também grupos de golfinhos-nariz-de-garrafa e aves marinhas oceânicas, como albatrozes e petréis”, detalha.

O oceanógrafo acrescenta que há regras para o avistamento das baleias, normatizada  pela portaria número 24 do Ibama. “Embarcações motorizadas ou não, devem respeitar o distanciamento mínimo de 100 metros do animal. Embarcações motorizadas devem permanecer com o motor em neutro. É proibido interromper o curso de natação do indivíduo ou do grupo ou perseguir o animal, considerado crime ambiental. É imprescindível o respeito às normas para a segurança do animal’, explica o profissional.

Falta de alimento e temperatura podem ter influência em encalhes e alto número de visitas

Até o último dia 28 de julho, houve um total de 88 encalhes fatais de baleias em longo de toda costa brasileira. Os casos foram registrados em Santa Catarina (31), São Paulo (21), Rio de Janeiro (11), Rio Grande do Sul (8), Bahia (6), Espírito Santo (5) e Sergipe (1). Dados do Projeto Baleia Jubarte apontam que parte delas foi capturada por redes de pesca ilegais, encalhou em praias (com estômagos repletos de plástico) ou ainda juvenis que se perderam das mães. Mas, a falta de alimento no trajeto pode ser um dos fatores.

Em Santa Catarina, a Polícia Militar Ambiental tem intensificado ações de retirada de redes ilegais da costa, especialmente no Litoral Norte. Contudo, o coordenador do Projeto Baleia Jubarte, Milton Marcondes, também aponta um outro possível fator para o alto número de encalhes e mortes: a falta de alimento no trajeto da Antártida até a costa brasileira por decorrência do aquecimento global.

As baleias jubarte alimentam-se de krill (tipo de crustáceo) e pequenos peixes. O fato de os animais encontrados estarem mais magros pode indicar diminuição da oferta de krill nas regiões mais profundas, conforme apontou Marcondes, o que atrairia as baleias para regiões mais próximas da costa que tem maior oferta de alimento.

“Tem alguns anos que são atípicos, estamos em um ano atípico desses. Estamos com bichos muito magros, que não conseguiram se alimentar direito. Deve ter diminuído [a quantidade de] krill esse ano e aí eles estão vindo para perto da costa em busca de comida, principalmente os jovens que não estão na idade de reproduzir”, explicou o pesquisador à Agência Brasil.

O pesquisador afirma que esses picos de mortalidade não têm afetado a recuperação da população das jubarte e que sua população vem crescendo. No entanto, a preocupação é com o sofrimento dos animais.

“Do ponto de vista de conservação da espécie, não é uma coisa tão preocupante. Do ponto de vista do bem-estar animal, cada indivíduo desse que chega aqui magrinho ou que acaba se enroscando em uma rede pesca e morrendo passa por um sofrimento muito grande, então a gente tem uma preocupação, sim, com esses casos e em como tentar diminuir esse tipo de ocorrência”, disse ele à repórter da Agência Brasil, Camila Boehm.

TEMPERATURA DAS ÁGUAS ESTÁ MAIOR

Para o biólogo da Epagri/Ciram, Luiz Vianna, a elevação na temperatura do mar pode estar influenciando a presença de baleias jubarte no litoral catarinense. Desde o início do outono tem se observado um aumento da temperatura da superfície do mar (TSM) no Oceano Atlântico sul. Durante o mês de abril, a TSM na costa de Santa Catarina apresentou valores de até 1,3°C acima do normal, alcançando 24,5°C.

Até a segunda semana de junho, ainda era possível observar valores 1°C acima do normal, de acordo com o monitoramento de anomalia da TSM do Worldview. “Suspeitamos que esse fenômeno possa ser um dos motivos para elas terem se aproximado e ficado por tanto tempo no nosso litoral”, explica. A Epagri/Ciram é um órgão do governo do Estado e referência nacional em monitoramento ambiental.

O litoral catarinense é corredor migratório para as baleias jubarte, que normalmente rumam em direção ao Norte, um pouco mais afastadas da costa – diferentemente da baleia franca, que costuma visitar as praias do estado com frequência. Excepcionalmente neste ano, algumas baleias jubarte ficaram na faixa leste da Ilha de Santa Catarina. “Temos observado quatro juvenis que provavelmente desgarraram do grupo e agora estão habitando os arredores da ilha do Campeche”, diz Vianna

Foi de tirar o fôlego”

Sailing Yabá é um belga que reside em Penha, na região entre a Praia do Quilombo e Praia da Armação. Da janela de seu apartamento, avistou uma baleia-jubarte cruzando o oceano e decidiu embarcar em seu caiaque para um registro mais próximo. Viveu algo que jamais esquecerá. “Eeu nunca tinha visto uma baleia antes. Sou da Bélgica e lá nós não temos a chance de ver baleias assim. Quando vi os esguichos desde a praia quis pegar o meu caiaque para tentar ver um pouco mais de perto. Mas não imaginava que seria tão de perto!”, recorda-se.

De longe, sua esposa registrou o encontro de Sailing, chamado pelos amigos de Ben, com a gigante dos mares. “Elas definitivamente são animais curiosos e chegaram bem pertinho de mim e do caiaque. Foi de tirar o fôlego! Pelo tamanho delas eu me sentia um pouco intimidado, mas elas foram tão gentis ao nadar perto de mim que não me senti perigo. Foi uma experiência surreal”, acrescentou.

O perfil fotográfico no Instagram, Eu Amo Piçarras (@euamopicarras), também cravou em seus anais digitais da presença de jubartes na costa piçarrense. No último dia 28, bem cedo, várias costearam a cidade – replicando as fotografias do jornalista Felipe Franco. “Foi uma manhã (28) espetacular. Eram mais de dez. Esguichos de água ao longo de todo o horizonte. Algumas, menos tímidas, davam seus saltos ou batiam as caldas contra o oceano. Quem tirou um tempinho para apreciar, se encantou”, postou.

ABRE ASPAS

Jeferson Dick – oceanógrafo e coordenador do PMP-BS/Univali – Unidade Penha

JC - Em alto mar, como proceder com um avistamento seguro?

Jeferson - O avistamento de baleias é um momento impressionante, afinal trata-se de alguns dos maiores animais vivos na Terra. Quando o avistamento é realizado embarcado é importante saber que estes animais são extremamente sensíveis ao barulho e podem ter a rota prejudicada com a aproximação. Outros riscos envolvem atropelamentos, emalhe acidental em redes de pesca ou encalhe nas praias.

Por estes motivos, a legislação brasileira definiu um regramento seguro para admirar estes animais.  De acordo com a Portaria número 117, do Ibama (26 de dezembro de 1996), alterada pela Portaria número 24 do Ibama (fevereiro de 2002): Embarcações motorizadas ou não, devem respeitar o distanciamento mínimo de 100 metros do animal. Embarcações motorizadas devem permanecer com o motor em neutro. É proibido interromper o curso de natação do indivíduo ou do grupo ou perseguir o animal, considerado crime ambiental. É imprescindível o respeito às normas para a segurança do animal.

Ao observar a presença das baleias, navegue com segurança e respeite o distanciamento, desligue o motor da embarcação e contemple o espetáculo em silêncio, sem perseguir o animal.

JC - Caso esses animais sejam localizados na areia, como proceder?

Jeferson - Avisar imediatamente as equipes do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS) pelo telefone 0800 642 3341. Informe a praia, o município e um ponto de referência da ocorrência. A ligação é gratuita e funciona diariamente das 8h30min às 17h30min.

JC - Recentemente um grupo foi visto afugentando um leão-marinho, em Balneário Camboriú. É correta essa ação?

Jeferson - Não. Os Pinípedes são animais semiaquáticos, ou seja, possuem hábitos dentro e fora da água. Nesta época do ano, algumas espécies de Pinípedes estão em período de migração e param nas praias ou nos costões para descanso. O repouso faz parte do comportamento natural destes animais e precisa ser respeitado para que o animal recupere a energia antes de seguir viagem. Para observar esses animais é importante manter a distância de 15 metros, no mínimo; não fazer barulhos, evitar movimentos bruscos e a aproximação de animais domésticos.

 

SOBRE O PMP-BS

O PMP-BS é uma atividade desenvolvida para o atendimento de condicionante do licenciamento ambiental federal, conduzido pelo Ibama, das atividades da Petrobras de produção e escoamento de petróleo e gás natural na Bacia de Santos. Tem como objetivo avaliar possíveis impactos das atividades de produção e escoamento de petróleo sobre as aves, tartarugas e mamíferos marinhos, através do monitoramento das praias e atendimento veterinário aos animais vivos e necropsia dos encontrados mortos. O projeto é realizado desde Laguna (SC) até Saquarema (RJ), sendo dividido em 15 trechos. A Univali monitora o Trecho 4, compreendido entre Barra Velha e Governador Celso Ramos (SC).






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