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Audiência vai debater o transporte coletivo

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Foto: Norberto Machado
Abrigos precários são uma das reclamações dos usuários em Palhoça

A Câmara de Vereadores convocou os palhocenses a participar de uma audiência pública nesta quinta-feira (24), para debater o transporte coletivo em Palhoça. A reunião começa às 19h30, na própria Casa Legislativa.
A iniciativa, do vereador Luciano Pereira (PSB), visa à discussão exclusiva do serviço oferecido no município. Porém, o debate é mais amplo. Mais do que o serviço local, o que está sob os holofotes de todas as prefeituras da região é a macro questão da mobilidade. Tanto que há esforços no sentido de construção de um sistema intermunicipal integrado. O próprio posicionamento oficial da empresa Jotur, responsável pela oferta do transporte público em Palhoça, aponta para essa direção: “A respeito da realização de audiência pública municipal no próximo dia 24, na Câmara de Vereadores de Palhoça, a Jotur: (a) compreende que o planejamento deve ser traçado coletivamente, contemplando não só o município, mas todas as cidades da região; (b) acompanha os debates sobre o desenvolvimento da região metropolitana da Grande Florianópolis no sentido de planejar a organização das cidades que a compõem; e (c) aguarda os desdobramentos do Plano de Mobilidade Urbana Sustentável (Plamus), inclusive no que se refere à revisão do modelo de transporte público”.
Talvez o próprio Executivo esteja em compasso de espera por uma decisão regional. Isso justificaria a postergação para a proposição de uma nova licitação para a concessão do serviço de transporte público em Palhoça. O contrato com a Jotur já teria expirado, e a empresa estaria atuando de forma emergencial, enquanto a nova licitação não é convocada.
Há uma expectativa da população para uma redução de tarifas quando o novo contrato for assinado, mas nos bastidores, a projeção não é assim otimista. Haveria uma defasagem nos valores praticados atualmente, e a empresa que participar da licitação não pode (ou, pelo menos, não deveria) oferecer um valor baixo demais, que prejudicasse sua saúde econômica ao longo do processo. É preciso oferecer garantias de que vai conseguir operar o sistema com o preço cobrado. Uma alternativa seria a Prefeitura vir a subsidiar parte do valor das passagens do transporte coletivo municipal. Isso seria viável para o poder público?
Em tempo: a redação do Palhocense enviou perguntas à Prefeitura a respeito da licitação, mas nenhuma resposta foi enviada até o fechamento desta edição. Quem sabe, a audiência pública possa oferecer respostas.

Usuários avaliam
De um modo geral, o transporte público em Palhoça sempre foi alvo de muitas reclamações ao longo do tempo, com passagens consideradas caras, ônibus frequentemente lotados, veículos em condições ruins, além do grande tempo de espera nos pontos de ônibus, que muitas vezes nem existem. Os usuários não poupam palavras na hora de contar como está a situação do transporte coletivo atualmente no município e pedem uma mudança urgente.
Em passeio por alguns bairros do município, a redação do Palhocense coletou opiniões dos usuários, que em sua maioria reclamam sobre o fato dos veículos estarem sempre lotados, com condições ruins, sujos, incluindo as paradas de ônibus, que estão em estado deplorável; sem falar nos lugares que não têm ponto de ônibus e a população espera debaixo de sol e chuva. 
Maria Isolete Menezes, moradora do São Sebastião, reconhece que a estação de ônibus de Palhoça foi uma conquista para o município, mas acredita que ainda não é o suficiente. “A forma como fizeram para que se pague apenas uma passagem e se consiga chegar ao seu destino é muito boa, mas o problema é que deu muito mais trabalho e atrapalhou muito a vida de quem precisa de agilidade”, reflete. Ela explica que a integração dos ônibus foi algo muito bom, que ajudou muita gente a economizar mais, mas em compensação, atrasou bem mais a vida de quem depende de dois ou mais coletivos por dia. 
A moradora aponta ainda outro problema: o horário de circulação dos ônibus. Ela descreve a falta de mais horários, principalmente tarde da noite e aos finais de semana. Maria explica que assim como ela, muitas pessoas saem do trabalho tarde e têm dificuldade para conseguir conciliar os horários com o das últimas saídas do transporte coletivo, uma situação que a deixa indignada. “Se tem gente trabalhando, tem que ter ônibus”, defende a moradora.
Para as estudantes Larissa e Gabrielle, as condições dos ônibus do transporte coletivo é o que mais as deixam incomodadas. “Sempre sujos, com muito lixo dentro e ainda com diversos bancos quebrados. Dá vergonha de precisar de ônibus nessas condições. Será que o município não vê a triste situação de quem precisa usar o transporte coletivo e passa todos os dias por um verdadeiro teste de sorte e resistência?” É o questionamento das estudantes, moradoras do bairro Aririú. 

A situação do Sul 
No Sul, onde recentemente a Jotur assumiu as linhas de ônibus que antes eram operadas pela Paulotur, a mudança também é alvo de reclamação entre os usuários. Eles afirmam que os meses que se passaram ainda não foi tempo suficiente para a empresa se adequar às necessidades da população. “Eu preferia a outra empresa de ônibus. A Paulotur passava no horário certo, os ônibus eram mais confortáveis e maiores; hoje, com a Jotur, os horários estão bem diferentes, tem menos ônibus e estão sempre lotados, pois são bem menores”, compara Leonardo Prim, morador da Pinheira.
Quem precisa do transporte coletivo e estava acostumado com a antiga empresa reclama muito da falta de horários e da boa educação com que os funcionários atendiam os usuários. “Toda vez tem que ficar em pé, pois está sempre lotado. Isso sem contar nas condições de cada ônibus, que são vergonhosas. Falta manutenção, limpeza, cuidado com o veículo e ainda por cima mais educação por parte dos motoristas e cobradores”, destaca Ivani Terezinha de Souza, moradora da Pinheira há 15 anos.
A revolta dos moradores é tanta que eles afirmam que falar não surtiria tanto efeito, e que o ideal seria que o prefeito Camilo Martins (PSD) desse uma volta de ônibus e conferisse de perto a realidade de quem usa o transporte coletivo hoje em Palhoça, principalmente na região Sul. “Eu faço questão de pagar a passagem dele, o prefeito teria que esperar ônibus nos pontos e pelo tempo que nós esperamos, andar nos coletivos e então depois me dizer o que ele acha, porque do jeito que a gente reclama parece exagero, mas infelizmente não é. Vem, prefeito, tenho certeza que depois de uma viagem com nossa linha de ônibus muita coisa iria mudar”, convida a moradora da Guarda do Embaú Emília Dias.
A Jotur relembra que assumiu as linhas do transporte coletivo ao Sul de Palhoça há pouco mais de 30 dias, que estuda o fluxo de origem-destino e está se adequando para atender aos usuários daquela região, e à disposição para contribuir na melhoria da prestação deste serviço.

O medo dos articulados
Muitas pessoas ainda estão assustadas com o incidente com o ônibus articulado da Jotur, quando a “sanfona” que divide as partes dianteira e traseira se partiu, no início de julho. O próprio Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) se preocupou com o episódio e decidiu apurar se há efetiva fiscalização e verificar as condições de funcionamento e manutenção dos ônibus articulados utilizados nos sistemas de transporte público intermunicipal da Grande Florianópolis.
Apuração será feita em inquérito civil aberto pela 29ª Promotoria de Justiça da Comarca da Capital, que atua na área da defesa do consumidor. De acordo com o Promotor de Justiça Eduardo Paladino, a primeira medida foi requisitar informações sobre a forma como os órgãos responsáveis fiscalizam as condições de funcionamento e manutenção dos veículos de transporte coletivo e a relação das empresas que utilizam ônibus articulados.
A Promotoria de Justiça também iria requisitar às empresas de transporte a cópia dos laudos de manutenção e revisão dos veículos dos últimos três anos, além de recomendar a retirada de circulação dos veículos que não tiverem laudo de manutenção ou revisão vigentes.
O incidente com o ônibus articulado que fazia a linha Unisul-Estação, inédito no Brasil, foi considerado como um caso “excepcional” pela Volvo, montadora do chassi do veículo. A ocorrência acabou resultando em um conjunto de ações da fabricante e das empresas de transporte coletivo para aprimorar ainda mais a segurança dos veículos. Uma das conclusões, que já está em andamento, é a necessidade de uma revisão do protocolo de manutenção dos carros desse modelo. Não obstante, todos os articulados estão passando por novas análises, o que inclui os 21 veículos deste tipo utilizados pela Jotur. “Em razão do ocorrido, a Jotur reestruturou e revisou processos internos, reforçou treinamentos relativos à manutenção desses equipamentos. A empresa ainda reforça que o ônibus envolvido no incidente estava com o laudo da vistoria em dia, realizada em 6 de março deste ano”, informa a empresa.
Os usuários contam que recentemente outro coletivo teria literalmente perdido as rodas da frente e se partido ao meio na BR-101. “Foi três dias depois que outro ônibus da Jotur se rachou ao meio e as rodas da frente caíram. Minha vizinha estava dentro desse ônibus e o incrível é que mesmo assim nada tem sido feito. Basta andar em um deles que vai ser possível ver as péssimas condições que os veículos têm trafegado. Tem funcionários que são tão mal-educados que eles precisavam de curso de boas maneiras, como lidar com o público, pois o despreparo é absurdo”, desabafa Emília, que ainda acrescenta um apelo, pedindo atenção à empresa: “São vidas que estão em jogo, sujeitas a todos os dias ser vítimas de um acidente por falta de manutenção e cuidado”.

Paradas de Ônibus
Na maioria dos bairros palhocenses, quando as paradas de ônibus existem, estão em péssimas condições. São poucas as que estão boas e servem realmente de abrigo para os usuários. Nos bairros da Ponte do Imaruim, Aririú, Alto Aririú, Bela Vista, Guarda do Cubatão, Pachecos, Furadinho, Pinheira e Guarda do Embaú, existem paradas que estão sem condições de serem utilizadas. A maioria, muito antiga, está com a estrutura completamente comprometida. Um problema que, na opinião dos usuários, é simples de resolver, mas que não tem recebido a devida atenção dos responsáveis. 
Inconformados com o descaso do município em relação aos pontos de ônibus, os moradores acreditam que, para que alguma coisa seja feita, alguma “desgraça” teria que acontecer. “Eu não entendo o que eles estão esperando, alguma estrutura cair na cabeça de alguém? Só pode. Porque é só olhar e ver que aqui não tem condições de abrigar ninguém, é mais seguro ficar na chuva e no sol do que tentar se proteger aqui e correr o risco de ter o ponto caindo sobre você”, descreve Jeane Pinheiro Lopes, moradora do bairro Furadinho. 
Na Pinheira, tem paradas de ônibus em que só existe a placa no ponto e mais nada, ou seja, idosos, gestantes, pessoas com crianças de colo, deficientes, todos esperam o ônibus em pé. “Em dias de chuva isso é ridículo, em uma mão o guarda-chuva, na outra a bolsa ou o celular, e quando o ônibus chega é um sufoco, não adianta, porque a gente acaba se molhando e o ponto de ônibus fica só de enfeite, porque nem teto tem”, reclama Inês Budag, moradora da Pinheira.
Nos bairros do Aririú, Alto Aririú e Guarda do Cubatão, os moradores parecem estar até mesmo desesperançosos. “Aqui é tudo antigo, faz tempo que eles não colocam um ponto novo. Tem lugar mesmo que não tem ponto, como aqui na entrada da Guarda, todos esperam debaixo de chuva e também do sol, e a Prefeitura não faz nada. Até já desisti de tentar alguma coisa, várias vezes liguei na Prefeitura, mas até hoje nada foi feito e não acredito que mais nada seja. Talvez na época das eleições”, desacredita Mauro Henrique Neves, morador do Aririú.
Moradora da Guarda do Cubatão, Samia Sand utiliza todos os dias um ponto de ônibus no bairro Pachecos, quando vai deixar sua filha na creche, e afirma que já faz tempo que os moradores solicitam que seja feita uma manutenção. “Já faz mais de um ano que pedimos que esse ponto seja arrumado e nada. Ele está sem telhado. Quando chove, não tem como se proteger da chuva e quando faz muito sol, é pior ainda. O problema é maior ainda porque é uma parada de ônibus que tem muita gente que usa e está muito ruim. Na última vez, fiquei indignada de ver uma mãe com um neném de colo pegando chuva ali ao aguardar o ônibus. O preço da passagem sobe, mas arrumar, eles não arrumam”, reclama Samia.
No Bela Vista, muitos pontos de ônibus não têm nem placa, quanto mais uma estrutura para abrigar os usuários. “Aqui já foi pior, não tínhamos nem ônibus direito e os horários eram horríveis. Ter ponto de ônibus é artigo de luxo, que com certeza não é para nós. Realmente, nossos pontos são sempre lotados, crianças, idosos, gestantes e infelizmente é sempre um problema, pois sem ter lugar para sentar, já vi gente passar mal no verão, por causa do calor. É um absurdo, mas para a Prefeitura, parece que tudo está dentro do normal, porque quando a gente liga eles dizem que não é com eles e sim com a Jotur; mas quando a gente liga para a empresa, eles dizem que é com a Prefeitura. Ou seja, um joga para o outro e ninguém faz”, lamenta Fernando Soares Meinnel, morador do Bela Vista.
A Prefeitura informa que está atenta aos problemas referentes à manutenção dos abrigos em pontos de ônibus. Por isso, está realizando a aquisição de novos abrigos, para minimizar os problemas apresentados. Pretende instalar mais de 40 novos abrigos de ônibus até o final do ano. Paralelamente, vem notificando a empresa Jotur para que proceda a manutenção nos abrigos existentes. 

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