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A voz dos presos, inspiradas em Zaratustra

Documentário filmado por estudante de cinema da Unisul na Colônia Penal Agrícola de Palhoça traz uma reflexão sobre as relações humanas

Luciano Smanioto
Cineasta Luiz Fernando F. Machado orienta os colegas de cárcere
O cartaz que anuncia a exibição de estreia do documentário “Zaratustra Ainda Fala” avisa: “a maior experiência audiovisual artística laboral realizada por um cineasta detento no sistema carcerário catarinense, gravado em 10 horas, com equipe técnica composta por profissionais e detentos”. O “cineasta detento” é o estudante de Cinema da Unisul Luiz Fernando F. Machado. O cenário era a Colônia Penal Agrícola de Palhoça. Foi lá que, assim como falou o Zaratustra de Friedrich Nietzsche em 1883, o cineasta confirmou: “É preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante”.
O caos veio com a detenção, em 2011. “Fui acusado de tráfico, Numa investigação bem louca lá em Jaguaruna. Não denunciei ninguém e por causa de 100 gramas de maconha fiquei três anos e meio preso”, narra. Os dois primeiros anos foram cumpridos em Tubarão, em regime fechado. Precisou interromper o filme que produzia como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), sobre a despedida de um faroleiro após cumprir a missão de vigiar o mar. Foi obrigado a trocar o vídeo pelas letras e na prisão escreveu o TCC: Cinema Paralelo Regional – A Revolução dos Anônimos, em que traz a “estética da sopa de pedra”, propondo o mundo como uma união de forças.
Mas Luiz Fernando não queria abandonar as câmeras. Desenvolveu um novo projeto, vinculado a uma matéria da faculdade, “Políticas de Documentário”. Queria filmar no presídio. Queria registrar aquele momento da vida de uma forma positiva. Sabia que estava preso, mas também sabia que ali não era o seu lugar. “Nesse período, estava junto com sequestrador, com assassino, então acho que é uma ferida na lei isso aí, no meu ponto de vista. Consegui mostrar que tem pessoas ali que têm perspectiva. Se conseguir chegar ali com um propósito, uma coisa diferente, eles vão abraçar a proposta”, conta.
Mas demorou para a proposta ser abraçada pelas autoridades da segurança pública. Em Tubarão, apresentou o projeto duas vezes ao Departamento de Administração Prisional (Deap). Foi negado. Aí veio a transferência para Palhoça, onde cumpriria o restante da pena em regime semiaberto na Colônia Penal Agrícola. Recorreu ao Ministério Público e foi autorizado a rodar seu documentário. Teria apenas um dia para filmar tudo. Gravou as cenas das 7h às 18h. Como foi tudo bem planejado, foi o suficiente. “A Unisul emprestou duas câmeras e dois profissionais. O resto foi de forma independente, o resto dos equipamentos, advogado, produção, oficinas que fiz com os presos”, lembra.
Os próprios presos completaram a equipe, auxiliando no trabalho das câmeras, na iluminação, na captação de áudio. Cerca de 30 apenados participaram diretamente do projeto. “Tinha a confiança de todos, da massa ou da Deap. Sempre tive um relacionamento muito bom com ambas as partes e não gerou nenhuma consequência negativa para ninguém. A intenção não era fazer nenhuma denúncia, nem sensacionalismo, era mostrar a singularidade de cada um ali, de cada preso, para quebrar aquela teórica objetividade da mídia. A gente sempre vê rebelião, greve de servidores, superlotação com aquelas pessoas com a camisa na cara fazendo sinal com a mão de que o lugar está cheio, então aquilo ali se torna uma massa carcerária e acaba embrutecendo todo mundo. E ali no documentário não, apesar de ter vários criminosos, pessoas que não estão aptas mesmo a estar na sociedade, tem muitos que têm problemas como o meu”, pondera.
Luiz Fernando não fez uma “seleção de perfil”. Deu espaço a todos, dos mais perigosos aos evangélicos. E fez questão de mostrar que os detentos participaram da filmagem, não só na frente, mas também atrás das câmeras. “Foi tipo uma odisseia maluca. Mostra um pouco no vídeo, até como uma estratégia estética, a equipe trabalhando em meio às entrevistas, abrindo a câmera para revelar como eles estavam fazendo, como estavam ajudando, para mostrar que era uma atividade laboral mesmo”, explica o cineasta, que não é mais detento; já está em liberdade. E daqui a pouco não será mais estudante, será um profissional. A formatura está a caminho, e novos projetos também.
Vai fazer mestrado em Sociologia Política na Universidade Federal de Santa Catarina, usando a “estética da sopa de pedra” para propor um cinema comunitário e comercial ao mesmo tempo. E após exibir o documentário em uma sessão de estreia no cinema do Centro Integrado de Cultura (CIC), em Florianópolis, na última quarta-feira, dia 8, o cineasta quer mostrar o filme nas penitenciárias catarinenses. Já conversou com a secretária de Estado da Justiça e Cidadania, Ada De Luca, e tem uma segunda reunião marcada para dar andamento à proposta. Ele também deve entrar em contato com a Fundação Municipal de Esporte e Cultura para exibir a obra em Palhoça, onde tudo aconteceu. “Foi fantástico, é muito gratificante ver o pessoal se assistindo. Todo mundo gostou muito, a prisão toda quer comprar o DVD para mostrar à família e aos amigos do bairro. Essa é a questão do local, todo mundo quer se mostrar e se ver. E o cinema às vezes fica muito voltado para o entretenimento e acaba sendo uma coisa superficial”, destaca.
Quem quiser comprar, o DVD está à venda por R$ 25 (R$ 15 para quem tem cartão de visita carcerário). Contatos pelo telefone 9642-1682. Luiz Fernando também está inscrevendo “Zaratustra Ainda Fala” em diversos festivais, nacionais e internacionais, de documentários, de direitos humanos e universitários. E ele espera ganhar. Afinal, como dizia Nietzsche: “Nada me resta de tudo quanto tive, exceto tu, esperança”!
 

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